Israel mata mais jornalistas em Gaza do que em qualquer guerra da história mundial
Conflito na Faixa de Gaza já vitimou centenas de profissionais de mídia, superando somatório de mortes em diversos conflitos bélicos históricos

Luciano Meira
A guerra na Faixa de Gaza, entre Israel e grupos armados palestinos, tornou-se o conflito mais letal para jornalistas da história mundial. Estimativas recentes apontam que 246 profissionais de mídia foram mortos desde o início da ofensiva israelense, em outubro de 2023 — número que supera a soma das mortes de jornalistas em sete grandes conflitos anteriores, incluindo as duas Guerras Mundiais, a Guerra do Vietnã, a Guerra Civil Americana e os conflitos na Síria, Ucrânia e Iugoslávia.
Escalada mortal sem precedentes
Segundo dados do Sindicato de Jornalistas Palestinos, coletados em conjunto com o Memorial Freedom Forum e o Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ), 246 profissionais foram assassinados nos últimos dois anos, a imensa maioria deles palestinos. O Memorial Freedom Forum registra 67 mortes na Segunda Guerra Mundial e apenas dois na Primeira, revelando a magnitude inédita da mortalidade profissional em Gaza.Além das mortes, 520 jornalistas foram feridos em ataques das Forças de Defesa de Israel (FDI), enquanto 206 pessoas ligadas à imprensa permanecem presas, muitas em condições consideradas arbitrárias e ilegais pela comunidade internacional. Os veículos de comunicação não ficaram imunes: 115 deles foram destruídos na Faixa de Gaza e outros equipamentos de imprensa barrados, fechados ou apreendidos.
Ataques deliberados e silenciamento da imprensa
Entidades internacionais de jornalismo e direitos humanos denunciam que Israel promove ataques intencionais para impedir a cobertura da guerra, ameaçando, prendendo e assassinando jornalistas palestinos em retaliação ao seu trabalho. O CPJ considera que o Exército israelense está engajado em um esforço deliberado para silenciar a mídia local, classificando a ofensiva como a mais mortal e sistemática contra profissionais da imprensa já documentada.
Israel nega as acusações, alegando que parte dos jornalistas mortos teria vínculo com organizações terroristas, como o Hamas. Essas justificativas são amplamente contestadas por organizações de direitos humanos e por veículos internacionais, que afirmam que a cobertura jornalística é legítima e que os ataques representam violações graves ao direito internacional humanitário.
Exemplos emblemáticos e o sofrimento da categoria
Um dos episódios que chocou o mundo foi o bombardeio ao Hospital Nasser, em Khan Yunes, enquanto jornalistas documentavam as consequências de ataques anteriores — cinco profissionais morreram naquele dia, entre eles correspondentes da Reuters, Al Jazeera e agências internacionais. Outros casos recentes destacam o assassinato de Anas al-Sharif, correspondente da Al Jazeera, acusado injustamente por Israel de ser membro do Hamas, e morto em um ataque à frente do Hospital Al-Shifa, em Gaza.
Além do risco físico extremo, os jornalistas enfrentam dificuldades como a fome e a restrição de acesso a insumos básicos, decorrentes do bloqueio imposto por Israel ao território. Mídias internacionais como AFP, BBC e Reuters manifestaram preocupação com a segurança alimentar dos profissionais e suas famílias, ressaltando a gravidade da situação humanitária.
Um drama sem precedentes
A combinação de mortes, prisões arbitrárias, bloqueios e destruição de meios de comunicação reforça a percepção de que o conflito em Gaza representa uma das mais graves crises para a liberdade de imprensa e a proteção dos jornalistas na história contemporânea. Autoridades internacionais, organizações jornalísticas e de direitos humanos intensificam os apelos para investigações urgentes e mecanismos efetivos de proteção, enquanto os profissionais de mídia seguem trabalhando em uma das zonas de conflito mais perigosas do mundo.
Esta brutalidade inédita contra a imprensa é um retrato trágico do custo humano da guerra e da importância vital de assegurar o direito à informação em meio a crises globais.