Meus queridos vira-latas

Luciano Meira
A mais recente edição da revista britânica The Economist trouxe para sua capa um assunto que poucos imaginariam: o Brasil como exemplo de democracia para os Estados Unidos. Em sua reportagem, destacou que o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe, representa uma lição de maturidade democrática para a América do Norte. Sim, os mesmos Estados Unidos que, menos de cinco anos atrás, viram seus apoiadores invadirem o Capitólio e ainda hoje convivem com insistentes crises políticas e autoritarismos disfarçados.
Nesse jogo de espelhos, a publicação coloca o Brasil como o lado “adulto” da democracia ocidental, enquanto aponta para os EUA um triste papel de criança teimosa, afundando-se em corrupção, protecionismo e ameaças. A ironia é tão grande que só os mais patriotas dos vira-latas podem sentir orgulho: aquele país “distante, atrasado, imprevisível” que vemos nos jornais, agora dá lições a quem se julgava a superpotência exemplar.A revista lembra ainda que a memória da ditadura brasileira, relativamente recente, atua como escudo contra retrocessos, enquanto lá em cima, sob a sombra Trump, a democracia americana vive um reality show permanente de ameaças e surtos autoritários. O Brasil, mesmo com seus erros e cacofonias, demonstra empenho em fortalecer suas instituições — ainda que custe vencer a polarização e lidar com os resquícios da febre populista.
Portanto, caros leitores, parece que no xadrez político global, às vezes, o lugar de “exemplo” troca de tabuleiro. Para quem ainda se considera “vira-lata” sob o peso dos complexos históricos, a lição é clara: o reconhecimento pode vir de onde menos se espera, e a maturidade democrática, com todas suas dores e contradições, não está restrita a um endereço fixo.
E assim seguimos, observando o Norte, agora com um sorriso irônico, enquanto eles assistem nossa peça madura — quem diria.
Este é o Brasil que a Economist viu. Agora cabe a nós manter o roteiro, ou mudar o final do filme.