Monalisa

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Escrever sobre o “belo” é tarefa difícil. Fácil é tomar sopa mesmo estando banguelo.

De início, aviso ao leitor: não estou falando daquele cantor.

Agora, se você fez associação com o bonito, o harmônico, sobre algo que proporciona bem-estar, prazer, aí sim, estamos nos conectando.

Bora fazer o download?

Numa rápida pesquisa na web, encontro uma série de personalidades históricas e também da nossa contemporaneidade que pensaram e escreveram sobre o assunto, o “belo”.

Mais do que isso, assim como Aristóteles, estabeleceram tratados sobre o tema. Nesses casos, o “belo” vem entre aspas, nos indicando que a palavra dá margem a várias interpretações e análises.

Estamos falando de conceitos. Estamos falando de Estética, Ética, consumo e modos operantes.

Os filósofos debruçaram e debruçam diariamente sobre o assunto.

Platão, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Kant, Adorno, Horkheimer são alguns “cabeçudos” que versam sobre ele. Nos legam muitas dores de cabeça e, com certeza, contribuem com a indústria farmacêutica na fabricação de medicamentos. Dali, Dipirona.

Melhor não “quebrar a cabeça” com isso.

Será?

Quando você compra carne no açougue, você olha, observa, presta atenção no produto. Quando vai ao hortifrúti, você tateia frutas e verduras para ter certeza de que não estão estragadas. Que estão boas para o consumo. Muitas vezes, nesses ambientes, você mostra sabedoria, pois sabe que nem tudo que tem aparência bela, bonita, é necessariamente um produto bom para consumo.

Existem os agrotóxicos, existem os conservantes que dão um aspecto até saudável, maquiando os alimentos, mas, ao serem ingeridos, podem até levá-lo a óbito.

Interessante pensar que, quando o assunto é calar o ronco do estômago, anunciando a fome, você “bota-reparo” nas coisas.

Trabalha com os sentidos.

O “belo” opera no comércio exatamente dessa forma, seduzindo seus sentidos. Definir uma obra como sendo “bela” ou “feia” depende muito de cada pessoa, porém, para acadêmicos, é possível que haja consenso.

Nossa formação sociocultural diz muito nessa experiência de se deparar com o “belo” ou o “feio”.

Resumindo: ao contemplar algo e sentenciar como sendo “belo”, não é somente através da teoria, da lógica ou mesmo da razão que você terá marcado a resposta certa.

Entra em cena sua sensibilidade. Suas emoções. Um efeito catártico acontece e você pode vivenciar fortes atravessamentos.

Algo foi criado para exercer verdadeiro fascínio em você.

Nem sempre foi ou é assim. Às vezes, o criador criou para uso próprio. Manutenção de seus próprios desejos, processos e até frustrações.

Podemos falar de manipulação através do “belo”?

Aí sim! Chego ao ponto que me moveu a escrever. Eu observo.

É nesse sentido que rogo a você que lembre das compras lá no supermercado e também no hortifrúti.

Use sempre o mesmo colírio, óculos, lente, lupa…

O que você leva na visão e nos demais sentidos, no ato de comprar um chuchu, esteja também armado com eles para adquirir outros produtos que você compra, pois tais produtos podem estar igualmente envenenados.

E, ao invés de chuchu, você leva pra casa um abacaxi.

Quem detém o poder, sabe utilizar do “belo”. Quem quer vender, sabe utilizar do “belo”. Quem quer manipular, adestrar, catequizar, cegar, influenciar, sabe da dinâmica do “belo”.

O “belo” abre portas. O “belo” desfila. O “belo” manda. Imperativo para conquistas e sucesso pessoal. Sinônimo de poder.

Uma estratégia de marketing, arquitetada muitas vezes para hipnotizar. Capturando seus sentidos e te encantando, como o canto das sereias que arrastaram os marinheiros para o fundo do mar. Estratégias de gestão. Pensamento político que te compra com beleza. Construção de imagens e sonoridades, com objetivo claro, mas usando de má-fé. Apostando em escalas 7×1, para manter o cidadão apartando-se da consciência crítica.

Legado de sistemas capitalistas.

Por fim, encerro. Não acho graça no quadro da Monalisa, mas se o original vier parar em minhas mãos, estarei bilionário. Para essa prosa, minha mãe diria: “Por fora bela viola, por dentro, pão bolorento.”

Camilo Lélis

Ator, itaguarense, com formação concluída no Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Transita pela atuação, escrita e direção cênica. Atuou em diversos espetáculos, com experiência também no cinema e na TV. @camilo.lelis.oficial
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