“Não aguento mais esses mineiros enrolados”, escreveu Cunha

Mensagem encontrada pela Polícia Federal integra decisão que bloqueou R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara e reforça investigação sobre suposta atuação informal na destinação de recursos públicos

Eduardo Cunha (Republicanos) – Reprodução Redes Sociais

Luciano Meira

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o bloqueio de até R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos), incorporou mensagens obtidas pela Polícia Federal que, segundo a investigação, indicam sua participação na articulação de emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. Entre os diálogos está a frase: “Não aguento mais esses mineiros enrolados”, enviada por Cunha durante conversas sobre a destinação de recursos para municípios de Minas Gerais.

A medida cautelar foi adotada no âmbito da Operação Transparência, que apura supostas irregularidades na indicação e no remanejamento de emendas parlamentares. Segundo a decisão, há indícios de que Cunha teria atuado como articulador da distribuição de recursos públicos por meio de parlamentares e servidores da Câmara dos Deputados, apesar de estar fora da vida parlamentar desde a cassação de seu mandato, em 2016. A defesa do ex-deputado nega irregularidades e afirma que ele não exerceu “mandato clandestino”, sustentando que irá contestar a decisão.

Na decisão, Flávio Dino reproduz trechos da investigação da Polícia Federal que apontam que Cunha participava diretamente da escolha de municípios beneficiados, alterava destinações de emendas e discutia prioridades para cidades mineiras. Para os investigadores, as mensagens reforçam a hipótese de que ele mantinha influência sobre recursos públicos sem possuir qualquer atribuição legal para isso.

A frase atribuída a Cunha aparece em conversa com a servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, responsável, segundo a investigação, por operacionalizar alterações nas emendas. Em outro diálogo citado pela Polícia Federal, o ex-deputado também afirma que “Minas é muito pulverizado” ao justificar sucessivas mudanças na destinação dos recursos destinados ao estado.

A própria investigação destaca um aspecto considerado relevante pelos investigadores: Eduardo Cunha nunca construiu carreira política em Minas Gerais. Nascido no Rio de Janeiro, ele foi eleito deputado federal pelo estado fluminense, presidiu a Câmara dos Deputados representando o Rio de Janeiro e concentrou toda sua trajetória política naquele estado. Em 2022, tentou retornar à Câmara por São Paulo, mas não foi eleito.

Agora filiado ao Republicanos e com domicílio eleitoral transferido para Minas Gerais, Cunha prepara uma nova tentativa de retorno ao Congresso pelo estado mineiro. A Polícia Federal afirma que o direcionamento de emendas para municípios de Minas pode representar uma estratégia de aproximação política com lideranças locais em um estado onde ele não possuía histórico de atuação eleitoral nem base política consolidada.

Nos bastidores políticos, a mudança de estado também é interpretada como uma forma de evitar disputar votos diretamente no Rio de Janeiro, onde sua filha, Dani Cunha (PL-RJ), exerce mandato de deputada federal e concentra o capital político construído pela família ao longo de décadas. Essa avaliação circula no meio político, mas não integra a decisão do STF nem foi confirmada publicamente por Eduardo Cunha.

Ao fundamentar o bloqueio patrimonial, Flávio Dino afirmou que os elementos reunidos pela Polícia Federal apontam indícios de que Cunha continuava exercendo influência sobre a destinação de verbas públicas sem mandato parlamentar, situação que, segundo o ministro, exige medidas cautelares para preservar a investigação e impedir a continuidade da execução das emendas sob suspeita.

Além do bloqueio de bens, a decisão suspendeu pagamentos relacionados às emendas investigadas e determinou que órgãos federais informem ao Supremo as providências adotadas para interromper a execução dos recursos. A investigação prossegue no STF e não há condenação contra Eduardo Cunha. O ex-presidente da Câmara afirma que exercerá seu direito de defesa durante o andamento do processo.

O Metropolitano

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