Nintendo barra jogos em evento beneficente e acirra debate sobre política de direitos e preços

Empresa exige autorização prévia para transmissão pública, e ausência de seus títulos marca edição do RTA in Japan voltada à Médicos Sem Fronteiras

Imagem produzida com IA – Arte RMC
Pedro Meira

O tradicional evento beneficente japonês RTA in Japan, marcado para 9 a 15 de agosto, anunciou a exclusão completa de títulos da Nintendo após ser notificado pela gigante japonesa sobre o uso não autorizado de seus jogos. Pela primeira vez em nove anos, personagens como Mario, Link e Samus não aparecerão na maratona de speedruns, cuja arrecadação é revertida para a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras.

No comunicado oficial, a organização detalhou que, em junho, recebeu aviso da Nintendo exigindo permissão prévia — solicitada individualmente para cada jogo e evento — para a utilização dos títulos de seu portfólio em transmissões públicas, mesmo com finalidade filantrópica. Como a negociação não foi finalizada a tempo, todos os jogos da marca foram vetados na edição de 2025. Segundo os organizadores, a Nintendo caracterizou o uso feito em anos anteriores como “não autorizado”, pese o evento ser realizado por uma entidade sem fins lucrativos desde 2020 e com fins exclusivamente beneficentes.

O RTA in Japan, inspirado internacionalmente pelo Games Done Quick, é o maior evento do tipo no país e reúne jogadores para completar, em tempo recorde, jogos tradicionais e modernos, atraindo audiência robusta e engajamento. Com a retirada dos títulos clássicos da Nintendo, como Super Mario 64 — notório pelo alto público —, a programação foi reformulada com outros sucessos, o que gerou frustração entre fãs e críticas à postura restritiva da empresa.

A decisão reacende um debate antigo envolvendo a política de controle rígido da Nintendo sobre o uso de suas propriedades intelectuais. A companhia tem histórico de restringir streamings, fan games e iniciativas independentes, alegando proteção de direitos autorais, mas frequentemente é acusada por comunidades e criadores de inviabilizar ações de engajamento espontâneo e filantrópico em prol de interesses corporativos.

Preços altos: uma marca da estratégia Nintendo

A desaprovação não se limita à restrição de uso em eventos: a Nintendo também é conhecida por manter preços elevados tanto em hardware quanto em software, mesmo anos após o lançamento dos produtos. Em agosto, a empresa anunciou aumento nos valores do Nintendo Switch original, OLED e acessórios nos Estados Unidos, justificando com “condições de mercado” e tarifas de importação. Os jogos da nova geração, como Mario Kart World, chegam ao patamar de US$79,99, enquanto o Switch 2 foi lançado por US$449,99 e dificilmente enfrentará cortes expressivos mesmo com o avanço do tempo. No Brasil o Nintendo Switch 2 tem um preço médio de R$ 4.500, mas pode variar dependendo da loja e se incluir jogos como o “Mario Kart World” pode sair por R$ 4.800, segundo a Nintendo.

Ao contrário de outras gigantes do setor, que realizam promoções e reduzem preços de catálogos antigos, a Nintendo costuma manter práticas inflexíveis mesmo com demanda consolidada, aproveitando o prestígio de suas franquias históricas e a fidelidade dos consumidores. Analistas avaliam que tal estratégia pode funcionar no curto prazo — vide o sucesso de vendas do Switch 2, recém-lançado —, mas pode afastar camadas do público sensíveis a preço ou frustradas com a postura restritiva da empresa.

No contexto do RTA in Japan, a combinação de controle rigoroso sobre propriedade intelectual e política de preços altos evidencia o distanciamento da japonesa em relação à tendência do universo gamer em valorizar comunidade, acessibilidade e engajamento. Para 2025, a ausência de Nintendo não diminui o caráter solidário do evento, mas reforça o isolamento deliberado de uma das marcas mais icônicas da indústria diante das novas demandas de seu público.

Texto sob supervisão e responsabilidade de Luciano Meira.

Pedro Meira

Estudante do 7º ano do Ensino Fundamental, gamer nas horas vagas e bem humorado.
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