O chapéu roubado de José Bonifácio: uma lição esquecida de virtude política

Prof. Rafael Penido Vilela Rodrigues
Em uma tarde de chuva, eu passeava sem pressa entre as estantes da Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa, em Itaguara-MG, deixando que os títulos dos livros passassem por meus olhos atentos. Estava à espera de que um deles me escolhesse – e não o contrário. Foi então que, entre um livro e outro, num intervalo silencioso em meio às páginas, tropecei numa história realmente interessante – interessante e reveladora sobre um passado político esquecido pelos governantes brasileiros.
A história era sobre José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência. Para quem não o conhece, trata-se de um dos nomes mais importantes da nossa História: político, naturalista, mineralogista, intelectual da mais alta estirpe, um dos principais articuladores da Independência em 1822, braço direito de D. Pedro I em certos momentos e desafeto em outros; homem que ficou responsável por educar D. Pedro II quando seu pai retornou a Portugal. Um personagem que em vida teve reconhecimento internacional, mas que hoje, infelizmente, não passa de um retrato nos livros escolares, de uma estátua esquecida em alguma praça ou do nome de ruas e avenidas Brasil afora – como a Avenida dos Andradas, atrás do Parque Municipal, em Belo Horizonte, que é uma homenagem a ele e seu irmão.
Mas o episódio que encontrei na Biblioteca de Itaguara não cabe nesse enquadramento oficial. Era pequeno demais para os manuais estudantis e humano demais para as estátuas de bronze. Um caso típico da malandragem carioca.
Conta-se que José Bonifácio tinha um hábito simples – quase ingênuo aos olhos de hoje – de guardar seu salário dentro do chapéu. Sim, o salário de Ministro do Império do Brasil, colocado ali mesmo, entre a cabeça e o couro de lebre, protegidos do Sol do Rio de Janeiro. Eram cerca de 400.000 réis – metade do que recebiam os Ministros nos tempos de D. João VI, já que ele e seus colegas haviam decidido reduzir o próprio ordenado para poupar os cofres brasileiros.
E foi num desses dias de pagamento que ele resolveu sair do Paço Imperial e ir direto ao teatro. Naquela noite, ao sair, roubaram-lhe o chapéu. Para a felicidade do malandro, o chapéu estava recheado – e muito bem recheado.
No dia seguinte, o velho Bonifácio não tinha com que mandar comprar o jantar. Não possuía nem um vintém mais. Quem o socorreu foi o sobrinho, que arcou com as despesas do dia. A notícia chegou ao Imperador. Vendo a penúria em que se encontrava o austero Andrada, D. Pedro I entendeu que o Ministro devia ser indenizado pela situação e ordenou que se lhe pagasse outro mês de salário.
Aqui, a história poderia terminar como tantas outras: com o privilégio justificado pela importância do cargo. Mas entra em cena Martim Francisco, irmão de José Bonifácio e então Ministro da Fazenda – justamente o responsável pelo ressarcimento do irmão. Mas, surpreendentemente, se opôs. Disse, com uma sobriedade desconcertante, que os meses do ano eram os mesmos para todos os funcionários do Estado. Doze. Nem mais, nem menos. Que não havia treze meses para os protegidos do Imperador. E que, se fosse preciso, dividiria com o irmão o pouco que tinha, e assim viveriam com mais parcimônia naquele mês, o que era melhor do que dar ao país o funesto exemplo de se pagar duas vezes o ordenado de um só mês.
Foi o que fizeram.
Não houve segundo salário. Não houve indenização. Houve apenas um gesto raro: a submissão do interesse pessoal a uma ideia de Justiça maior que o indivíduo.
É impossível ler isso hoje sem certo espanto. Estamos falando do mesmo país onde se escondem fortunas em cuecas, em fundos falsos de guarda-roupas, em malas pretas que atravessam corredores oficiais. Do mesmo Brasil onde rachadinhas, orçamentos secretos, desvios, caixa-dois, subornos, cafezinhos – escândalos que se sucedem com tal frequência que já não causam indignação, apenas cansaço. Onde muitos dos que ocupam altos cargos governam não pelo bem comum, mas para a próxima eleição, para o próprio bolso, para a manutenção de privilégios.
Quem dera se o exemplo viesse de cima. Quem dera se a virtude fosse entendida como requisito da vida pública, e não como ingenuidade. O que vemos, em todas as instâncias – municipais, estaduais, federais – é a valorização dos cabides de emprego, dos cargos de “confiança”, dos servidores de conveniência política, enquanto aqueles que de fato sustentam com hombridade o funcionamento do Estado seguem invisíveis.
O episódio do chapéu não é apenas uma curiosidade histórica. É um espelho incômodo. Ele nos pergunta, sem levantar a voz: em que momento normalizamos o desvio? Quando deixamos de esperar moralidade daqueles que nos governam? Quando aceitamos viver num país às avessas, onde o errado é regra e o correto vira exceção digna de nota?
Talvez a resposta esteja justamente ali, entre um livro e outro, nas Bibliotecas Públicas silenciosas. Porque a virtude não faz alarde; a moralidade não pede holofotes. Mas, quando aparece, atravessa séculos – e ainda nos constrange.
