O trecho do 4° Sermão da Ascenção não fala apenas de pecado, fala de valor

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Rafael Penido

“A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado. Diante dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi. Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada. Eu valho nada.”

Vieira percebe algo que ainda nos atravessa: é mais fácil se engrandecer pelo preço que Deus pagou por nós, do que suportar o preço miserável pelo qual nos vendemos todos os dias.A vaidade não nasce do excesso de amor-próprio. Ela nasce do vazio da alma tentando se preencher com bajulações, comparações, ilusões.

Quando me vejo comprado por algo “infinito”, sinto que valho muito. Quando me percebo vendido por nadas – prestígio, aceitação, sobrevivência — descubro o tamanho da minha Servidão.

O Brasil teve a oportunidade de aprender cedo a organizar sua vida moral, mas em meio à luxuria desvairada e a cobiça delirante, entramos numa confusão organizacional entre desejos pessoais, afetos, vínculos e disputas por reconhecimento.

É aí que a vaidade encontra a cordialidade: agradar para existir, submeter-se para pertencer, vender-se para não ser excluído. Esse é o solo sobre o qual se formou nossa moral.

Rafael Penido

Professor, graduado em História e Filosofia e mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea. Atualmente está como servidor público da Prefeitura de Itaguara.
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