Sem legenda, Eduardo Cunha anda por Minas Gerais à procura de abrigo político
Ex-presidente da Câmara coleciona recusas de partidos mineiros e sugere mudar lei para permitir candidaturas sem partido

Luciano Meira
O ex-deputado federal Eduardo Cunha enfrenta dificuldades para viabilizar sua candidatura à Câmara dos Deputados por Minas Gerais nas eleições de outubro. Filiado ao Republicanos, Cunha não possui garantias de que a legenda cederá espaço para sua disputa em solo mineiro. O político buscou um novo domicílio eleitoral após o fracasso nas urnas paulistas em 2022. Naquela ocasião, concorrendo pelo PTB, ele obteve apenas 5.044 votos, marca insuficiente para garantir o retorno ao Legislativo federal. Apesar de sua ligação com o Rio de Janeiro, Cunha busca outro estado para se candidatar para não concorrer com sua filha a deputada federal Dani Cunha, eleita pelos cariocas.
A estratégia atual de Cunha repete o movimento de migração de estado, mas encontra resistência nas cúpulas partidárias. Lideranças de legendas como Avante, MDB e Podemos já sinalizaram que não pretendem oferecer legenda ao ex-parlamentar. O termo “tóxico” tem sido utilizado nos bastidores por dirigentes que temem o desgaste de imagem associado ao nome de Cunha. O ex-deputado é lembrado principalmente por ter presidido a Câmara durante o processo que culminou no impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Em Minas Gerais, Cunha tem mantido agendas com lideranças religiosas e instalado emissoras de rádio de cunho gospel para tentar reconstruir uma base. O político abriu interlocução em cidades como Juiz de Fora e Uberaba, tentando repetir o modelo que o consagrou no Rio de Janeiro. No entanto, o isolamento político persiste. O PL, sob influência da ala ideológica mineira, também barrou a entrada de Cunha, ignorando acenos feitos anteriormente ao presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto.
Em entrevista concedida nesta semana, Cunha demonstrou descontentamento com o sistema partidário brasileiro. Ele defendeu uma mudança na legislação eleitoral para permitir candidaturas independentes no país. Segundo o ex-deputado, os dirigentes partidários acumulam poderes excessivos e decidem arbitrariamente quem pode ser candidato. “O eleitor deveria ter o direito de escolher o indivíduo, independentemente da burocracia das siglas”, afirmou o ex-presidente da Câmara na ocasião.
A fala de Cunha expõe uma desconexão com o seu atual panorama político. Ao atribuir as dificuldades de candidatura puramente a um entrave legal, o ex-deputado ignora a sua baixa densidade eleitoral demonstrada em São Paulo. O isolamento em Minas Gerais sugere que o capital político acumulado em décadas de atuação em Brasília se dissipou após sua cassação e as condenações na Operação Lava Jato, ainda que posteriormente anuladas.
O ex-parlamentar ainda mantém conversas com pequenos diretórios, mas o tempo para as mudanças partidárias se esgota em menos de dez dias em 04/04. O Republicanos, embora seja sua atual casa, prioriza nomes com maior potencial de votos para não comprometer o coeficiente eleitoral da chapa. A insistência de Cunha em se manter como protagonista ignora o fato de que, para a maioria dos partidos, sua presença hoje representa mais um passivo de imagem do que um ativo de votos.
O impacto da trajetória de Cunha reflete a saturação de figuras políticas marcadas por processos de ruptura institucional e escândalos de corrupção. Do ponto de vista político, sua dificuldade de inserção em Minas Gerais mostra que a “máquina” que ele operava com destreza faliu. Socialmente, o eleitorado tem dado sinais de que o recall do impeachment e do conservadorismo religioso já não é suficiente para sustentar candidaturas sem uma base de serviços prestados ou renovação de propostas.
