Sintomático

Camilo Lélis
Sinônimo de poder e dinheiro para as grandes empresas e corporações, o efeito globalização nos uniu através das “big techs” – Google, Meta, Amazon, Apple, Microsoft…
Uniu, se pensarmos em conexões intercontinentais que, através da web e suas milhares de janelas, descortinaram uma gama de possibilidades de comunicação de impacto mundial.
E viva a tecnologia!
Ai de mim se eu esquecer o carregador…
Deus me defenda se eu ficar sem bateria…
E por aí segue o grau viciante de estar plugado nas telas.
Citei “Deus”, pois é assim que são vistos os donos dos empreendimentos. Deuses da tecnologia. Eles próprios se sentem o próprio.
Trilhões em negócios onde a legalidade convive com a ilegalidade. Juntas, são monetizadas a cada segundo. A cada clique, a cada publicação. A cada like.
Mas me atenho aqui ao fenômeno das redes sociais.
Fomos capturados por esse mundo novo, adornado de prazer e dor. Mas o paradoxo existe, e aquilo que aparentemente nos uniu, nos separou. Nos distanciamos do contato físico. Desaprendemos a conversar pessoalmente. Evitamos olhar nos olhos. Tocar. Nos tornamos estranhos uns para os outros. Queremos a imagem da pessoa, não mais a pessoa. Há quase um desencanto quando o encontro se dá ao vivo. Em tempo real.
Discando ou mesmo falando, tudo aparece nas telas. Ou quase tudo. Em segundos temos o que queremos. E o que queremos? Celulares em punho, consumindo telas. Devorando, adoentados, vídeos e mais vídeos.
Ávidos pela satisfação imediata. Uma droga. Novidades instantâneas que, com dedos ágeis, buscam de forma alucinante os “conteúdos”. Sim, estamos em agosto do ano de dois mil e vinte e cinco, e os poderes constituídos discutem a arma letal que se tornaram as redes sociais.
Estamos no controle. Estamos descontrolados. Estamos sendo controlados. Quem somos? Quem deixamos de ser? Somos?
Luxo, poder, ostentação, glória e também solidão.
O que queremos nesse planeta cibernético?
Estamos no controle, descontrolados, sendo controlados.
Fato: existimos. Para muitos, depois de décadas, o reconhecimento. A visibilidade. Eu sou alguém.
Alguém me segue. Eu sigo alguém.
Existimos para o outro. Milhões de seguidores e a “Meta”. Embalados por um espírito aventureiro, por vezes inocente ou mesmo completamente malicioso e manipulador, nossa existência passa pelo crivo da web.
Nem mesmo a pureza das crianças é poupada. A espontaneidade delas, suas características físicas, psíquicas, são expostas nas redes. Zilhões de pessoas no mundo gerando “conteúdos”. Se lançam numa autoexposição, onde a privacidade é escancarada. Falo por mim. Tudo vai “à mesa”. Todo tipo de comédia, drama, tragédia, ficção e realismo extremo. Agora demos outro passo: nossa busca e alimento é pelo artificial.
Alguns ganham muito dinheiro, outros ficam à margem. Outros só alimentam o sistema.
Um jogo de azar onde o talento, o estudo, a formação não são sinônimos de sucesso e progresso. Formação intelectual, experiência de vida, sabedoria não são garantias de aprovação. Pelo contrário, há quem defenda a ignorância, a burrice e até o desamor. Aqui vale tudo, até que sua escalada seja censurada, bloqueada. Seja pela Justiça ou pelos próprios seguidores. Um casamento que dá certo se seu perfil, seu reels, viralizar.
Porém, o cansaço já vigora e as fórmulas precisam ser revistas. Indivíduo conectado ou ser social? Humanos ou androides?
Estamos para o além.
Como escreveu Cazuza: o meu prazer agora é risco de vida.
Fujam.
“A vida é a glória, com seu cortejo de horrores.” – Fernanda Montenegro