Vale impede acesso de deputados a minas em Congonhas após extravasamentos de rejeitos
Comissão de Meio Ambiente da ALMG é barrada em visita técnica às estruturas da Mina de Fábrica e Viga; empresa alega questões de segurança, mas caso levanta suspeitas de ocultação de irregularidades

Lucano Meira
A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) foi impedida nesta sexta-feira (13) de realizar visita técnica às minas de Viga e Fábrica, da Vale, em Congonhas (MG), para fiscalizar condições de segurança após extravasamentos de rejeitos em janeiro. A iniciativa, solicitada pela deputada Beatriz Cerqueira (PT), visava avaliar riscos à população e ao meio ambiente, além de verificar o cumprimento de decisões judiciais recentes que reconheceram risco ambiental continuado na Cava Área 18, do complexo da Mina de Fábrica.
Em vídeo gravado no local, a parlamentar questionou a recusa da empresa: “Por que que a Vale tá nos impedindo de entrar? […] Eles têm o que esconder. Por isso que nós não podemos entrar.” Cerqueira destacou que a gestão do complexo estava presente, mas não respeitou o Legislativo, sugerindo adiamento para o dia 20, e criticou alegações de insegurança, já que Polícia Militar e Defesa Civil acessaram as áreas para auditorias. Ela anunciou que reportará o episódio ao Judiciário, afirmando: “A Vale está mascarando, ela tá tentando esconder informações que seriam importantes e relevantes para a sociedade.”
A mineradora Vale acumula histórico de tragédias ambientais em Minas Gerais, como o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (2015), que matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce, e o de Brumadinho (2019), com 270 mortes e danos irreversíveis à bacia do Paraopeba. Apesar das multas bilionárias impostas, nenhuma responsabilização criminal efetiva atingiu executivos ou responsáveis diretos pelos crimes, com sanções limitando-se a esferas pecuniárias e reparatórias.
O extravasamento na Cava Área 18, licenciado como cava mas operando como depósito de rejeitos, provocou carreamento de sedimentos e água para cursos d’água locais, com potencial contaminação da bacia do Rio Paraopeba, conforme decisão da Justiça Federal que determinou prazos para planos de emergência. A deputada já havia oficiado Feam e ANM cobrando providências, pressionando órgãos após os incidentes de janeiro.
Outro lado
A assessoria de imprensa da Vale foi procurada com questionamentos sobre o impedimento e os extravasamentos, mas não havia respondido até o fechamento desta edição. O espaço permaneceu aberto para manifestação da empresa, que agora se pronunciou:
“A Vale solicitou o adiamento da visita da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) nas unidades de Fábrica e Viga, considerando o foco das equipes em atender aos prazos das respostas solicitadas pelas autoridades e na limpeza e recuperação das áreas afetadas, bem como em ações essenciais de manutenção, segurança e integridade dos ativos operacionais, das comunidades e do meio ambiente. A Vale segue à disposição das autoridades para o esclarecimento de todas as medidas que estão sendo adotadas e se compromete a definir uma nova agenda junto à referida Comissão”.
