EUA e Israel atacam Irã, que reage contra Israel e bases americanas e eleva risco de guerra regional
Ataques coordenados, retaliação iraniana e décadas de escalada no Oriente Médio

Luciano Meira
Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã, que respondeu disparando mísseis e drones contra Israel e bases americanas no Golfo Pérsico, inaugurando um dos momentos mais tensos no Oriente Médio em décadas e reavivando o temor de uma guerra aberta envolvendo potências globais. A operação ocorre após anos de escalada entre Israel e Irã, agravada por disputas sobre o programa nuclear iraniano, conflitos por procuração na região e uma ofensiva anterior de Washington e Tel Aviv contra alvos militares e nucleares iranianos em 2025.
O que aconteceu agora
Na madrugada deste sábado (28, horário local), EUA e Israel deflagraram uma ofensiva conjunta contra a capital iraniana, Teerã, e outras regiões do país, em uma operação descrita por autoridades americanas como de “larga escala” e com foco em infraestrutura militar e no programa nuclear. Segundo autoridades israelenses e reportagens da imprensa, a primeira onda de ataques mirou centros de comando e instalações estratégicas, com relatos de que até mesmo a liderança política e religiosa iraniana, incluindo o líder supremo Ali Khamenei, teria sido alvo.
O presidente Donald Trump afirmou que o objetivo é “defender o povo americano”, devastar a capacidade militar do Irã e impedir que o país obtenha uma arma nuclear, classificando a operação como “em grande escala” e “continuada”. Em declarações públicas, Trump descreveu o regime iraniano como uma “ditadura má e radical” e disse que os ataques buscam eliminar “ameaças iminentes” contra os EUA, suas tropas e aliados, prometendo destruir mísseis e parte importante da Marinha iraniana.
Do lado israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu apresentou a ofensiva como uma ação para “eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã” e “criar condições” para uma mudança interna de poder em Teerã. O ministro da Defesa Israel Katz qualificou o movimento como “ataque preventivo” e justificou a operação como necessária para neutralizar riscos imediatos à segurança de Israel.
A resposta do Irã
Horas após o início dos bombardeios, o Irã lançou mísseis e drones contra Israel e contra bases militares americanas no Bahrein, Kuwait, Catar e outros países do Golfo, em uma retaliação anunciada como “decisiva” pela diplomacia iraniana. A Guarda Revolucionária Iraniana assumiu a autoria dos ataques contra instalações dos EUA na região, enquanto sirenes de alerta e sistemas de defesa foram acionados em território israelense diante de projéteis disparados a partir do Irã.
O Ministério das Relações Exteriores iraniano divulgou comunicado afirmando que o país “não hesitará” em responder e que “chegou a hora de defender a pátria e enfrentar o ataque militar do inimigo”. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã declarou que as forças armadas iniciaram uma “resposta decisiva” e orientou a população a evitar áreas sob risco, ordenando o fechamento de escolas e universidades, embora os bancos permaneçam funcionando para tentar preservar alguma normalidade econômica.
Autoridades iranianas afirmam que a ofensiva de EUA e Israel representa uma agressão contra sua soberania e acusam Washington e Tel Aviv de tentarem forçar uma mudança de regime por meio da pressão militar. Ainda não há um balanço consolidado de mortos e feridos, mas imagens e relatos de explosões em Teerã e em cidades do Golfo alimentam o temor de uma escalada em cadeia que envolva atores como Hezbollah, milícias ligadas ao Irã no Iraque e no Iêmen e outras forças alinhadas a Teerã.
Escalada de longa data entre EUA, Israel e Irã
A crise atual é o ápice de uma deterioração que se arrasta há décadas na relação entre Washington e Teerã, marcada pela Revolução Islâmica de 1979, pela ruptura de laços diplomáticos e por uma série de sanções e confrontos indiretos. Desde o início dos anos 2000, o programa nuclear iraniano tornou-se o principal foco de atrito, com o Ocidente acusando o país de buscar capacidade militar nuclear e o Irã alegando fins pacíficos para a tecnologia.
Os anos recentes foram especialmente conturbados. Em abril de 2024, Israel bombardeou o consulado iraniano em Damasco, na Síria, matando comandantes da Guarda Revolucionária e provocando um volumoso ataque iraniano com drones e mísseis contra Israel dias depois. Ao longo de 2024, uma sequência de assassinatos de líderes do Hamas e do Hezbollah, atribuídos a Israel, levou Teerã a disparar cerca de 180 a 200 mísseis balísticos em direção ao território israelense em outubro, a maioria interceptada por sistemas de defesa israelenses e aliados.
Em 2025, a escalada avançou. Em junho, os EUA bombardearam instalações nucleares iranianas durante uma guerra de 12 dias na região, em ação descrita como apoio direto a Israel. Paralelamente, o Irã ampliou seu raio de influência por meio de grupos aliados no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen, alimentando uma disputa de longo prazo com Israel e Washington pelo controle político e militar do Oriente Médio.
Negociações fracassadas e impasse nuclear
Antes da ofensiva desta semana, houve tentativas de reduzir a tensão por meio de negociações sobre o programa nuclear iraniano, mas as conversas emperraram em pontos centrais. Os EUA pressionavam por limites mais rígidos à capacidade de enriquecimento de urânio e inspeções mais intrusivas, enquanto o Irã exigia o fim de sanções econômicas que fragilizam sua economia desde a saída americana de um acordo nuclear anterior.
Relatos apontam que as negociações recentes foram acompanhadas por demonstrações de força militar, com Israel e EUA sinalizando que não descartavam uma nova rodada de ataques caso não houvesse avanço diplomático. Em Teerã, o regime enfrentava, ao mesmo tempo, protestos internos e pressões de setores mais duros da elite política, que consideram concessões nucleares como ameaça à segurança e à legitimidade do governo.
Para analistas, o colapso desse diálogo e a decisão de partir para a ofensiva militar consolidam um ciclo em que cada tentativa de negociação é seguida por nova rodada de sanções, ataques e retaliações, tornando mais distante qualquer solução diplomática duradoura.
Reação internacional e risco de conflito maior
A Rússia classificou a operação de EUA e Israel como “agressão” e alertou para o “risco de catástrofe”, pedindo o fim imediato da campanha militar e o retorno às negociações. Outros atores internacionais, como países europeus e organizações multilaterais, manifestaram preocupação com a possibilidade de o conflito se expandir para além de Israel, Irã e do Golfo, atingindo rotas de energia e aliados regionais dos dois lados.
Com bases americanas em vários países do Oriente Médio sob ataque e Israel sob risco de novos lançamentos de mísseis, diplomatas avaliam que a situação pode evoluir para uma guerra regional aberta caso não haja contenção nas próximas horas e dias. O temor é que milícias apoiadas pelo Irã em países como Líbano, Iraque e Iêmen sejam acionadas, assim como que aliados próximos de Washington e Tel Aviv ampliem sua participação, arrastando o conflito para um patamar mais amplo e imprevisível.
