Minas Gerais lidera ocupação urbana em encostas de risco no Brasil
Estado acumula 14,5 mil hectares em áreas inclinadas, três vezes o tamanho de Juiz de Fora; chuvas recentes mataram 72 e expõem expansão desordenada agravada pelo clima

Luciano Meira
Minas Gerais concentra a maior área urbana construída em encostas íngremes do país, totalizando quase 14,5 mil hectares – equivalente a mais de 2 mil campos de futebol –, segundo levantamento do MapBiomas divulgado nesta quarta-feira (4). O dado ganha contornos trágicos após as chuvas de fevereiro que deixaram 72 mortos e um desaparecido no estado, especialmente na Zona da Mata, com deslizamentos em bairros como Três Moinhos e Paineiras.
Dados do MapBiomas revelam aceleração do risco
Entre 1985 e 2024, as áreas urbanas em declividade acentuada no Brasil triplicaram, de 14 mil para 43,4 mil hectares, crescendo mais rápido que a urbanização geral (2,5 vezes). Minas lidera o ranking, seguido por Rio de Janeiro (8,5 mil ha), São Paulo (8,1 mil ha) e Santa Catarina (3,7 mil ha); no estado mineiro, a ocupação nessas zonas representa risco vital para dezenas de milhares de moradores.
Juiz de Fora, epicentro da tragédia recente com 65 mortes, é a terceira cidade brasileira nessa vulnerabilidade, com 1.256 hectares em encostas arriscadas em 2024 – atrás apenas do Rio (1,7 mil ha) e São Paulo (1,5 mil ha). A “curva de deslizamentos” na cidade indicava instabilidade desde 2020, com pico em 2023 e 1.243 eventos em 2026, 22 vezes mais que anos anteriores.
Expansão urbana ignora alertas climáticos
Enquanto as cidades brasileiras cresceram de 1,8 milhão para 4,5 milhões de hectares em 40 anos – 70 mil ha anuais, tamanho de uma cidade média –, as zonas de risco avançaram desproporcionalmente, afetadas por mudanças climáticas que intensificam chuvas extremas. Coordenadora Mayumi Hirye alerta que eventos extremos incidem mais em áreas vulneráveis ocupadas aceleradamente.
BH lidera perdas de vegetação para construções desde 1985, elevando riscos em morros; em Juiz de Fora, 113 mm de chuva em uma noite causaram 21 novos desmoronamentos, isolando bairros e soterrando casas.
Riscos hidrológicos completam quadro alarmante
Além das encostas, 1,2 milhão de hectares urbanos estão próximos a rios e córregos, sujeitos a inundações; Rio de Janeiro lidera com 108,2 mil ha, seguido por Rondônia (crescimento duplicado). Engenheiro Edmilson Rodrigues, do MapBiomas, defende monitoramento de margens fluviais para preservar qualidade de vida diante de eventos extremos crescentes.
Em Minas, histórico de negligência agrava tragédias; em 2026, fevereiro chuvoso (750 mm em Juiz de Fora) saturou solos frágeis, transbordando o Rio Paraibuna e destruindo vias como a Av. Rio Branco.
