Machosfera em foco: redpill e o ódio velado às mulheres

Grupos misóginos online estimulam violência de gênero com jargões codificados na internet

Reprodução Redes Sociais
Luciano Meira

Há décadas, grupos de homens atuam em fóruns, redes sociais e canais digitais para promover hierarquias de gênero rígidas e ódio contra mulheres, servindo como combustível para crimes reais como o estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, Rio de Janeiro, em janeiro de 2026, com cinco indiciados. Ativistas veem esses discursos como parte da misoginia estrutural, que defende privilégios masculinos históricos em esferas sociais, culturais e econômicas, com denúncias de crimes de ódio na internet subindo 54% e de misoginia 224,9% em 2025, segundo a SaferNet. Esses espaços usam códigos para disseminar ideias extremas, criando uma “machosfera” rentável, com 137 canais brasileiros identificados entre 2018 e 2024 publicando milhões de visualizações monetizadas.Origens e ideologia da machosfera

A machosfera engloba fóruns, YouTube, WhatsApp, Telegram e perfis que defendem a masculinidade tóxica e se opõem aos direitos femininos, contrapondo-se ao feminismo com o masculinismo, que prega papéis tradicionais e direitos diferenciados por gênero. Em resposta, usam “misandria” para alegar preconceito contra homens, atribuindo ao feminismo e leis protetivas a “destruição da masculinidade” . A ativista Lola Aronovich, alvo de ataques desde 2008 com seu blog “Escreva Lola Escreva”, levou à Lei nº 13.642/2018 (Lei Lola), que atribui à Polícia Federal investigações de conteúdos misóginos online, embora especialistas notem subimplementação apesar do aumento de casos. Aronovich descreve os agressores como “héteros de extrema-direita, bolsonaristas ou trumpistas, com combo de preconceitos: machistas, racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos e capacitistas”.

Principais grupos e comunidades

Redpill: “Despertar” para suposta manipulação feminina, termo inspirado na escolha da pílula que o protagonista faz no filme Matrix, pregando domínio masculino.Machosfera: Rede ampla de espaços digitais pró-masculinidade tóxica e anti-direitos femininos.

Chans: Fóruns anônimos para extremismo, vazamentos de fotos íntimas e ataques coordenados.

Incels: Celibatários involuntários (involuntary celibates), ressentidos que culpam mulheres por fracassos românticos.

MGTOW (Men Going Their Own Way): Afastamento total de relacionamentos com mulheres por leis “injustas”.

Pick Up Artists (PUA): Técnicas de manipulação para sexo, tratando mulheres como objetos.

Tradwife: Mulheres pró-papéis tradicionais, como donas de casa submissas.

Arquétipos e hierarquias

Esses grupos criam hierarquias pseudocientíficas baseadas em genética e status:

Blackpill (pílula preta): Destino determinado por aparência; sem esperança para “feios”.

Bluepill (pílula azul): Pejorativo para “alienados” pró-igualdade.

Chad: Homem geneticamente perfeito, desejado por todas.

Alfa: Dominante, líder, alcançável por esforço.

Beta: Comum, submisso, usado por dinheiro.

Sigma: Alfa solitário, sem validação social.

Stacy: Mulher atraente top, superficial.

White Knight (Cavaleiro Branco): Defensor de mulheres por sexo.

Becky: Mulher mediana.

Termos e gírias comuns

Depósito: Mulheres como recipientes sexuais.

80/20: 80% das mulheres para 20% dos homens top.

Hypergamy (Hipergamia): Mulheres buscam status superior.

AWALT (All women are like that): Todas as mulheres são assim.

Femoids ou FHOs: Organismo humanóide feminino, subumano.

Esses códigos perpetuam violência, com feminicídios subindo 10% nos últimos anos, demandando maior fiscalização e atenção da sociedade exigindo ações concretas do Poder Público.

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