Deputadas Duda Salabert e Erika Hilton aparecem em álbum de suspeitos em PE

Parlamentares acionam Justiça após imagens integrarem lista de reconhecimento fotográfico para investigação de roubo

Reprodução Redes Sociais
Luciano Meira

As deputadas federais Duda Salabert (PDT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) denunciaram nesta terça-feira (24) a inclusão de suas fotografias em um álbum de reconhecimento de suspeitos da Polícia Civil de Pernambuco. O material foi utilizado por agentes para a identificação de uma suposta autoria de roubo de celular ocorrido em fevereiro de 2025, no Recife. A situação chegou ao conhecimento das parlamentares por meio de um alerta oficial enviado pela Defensoria Pública de Pernambuco, que identificou a irregularidade durante a análise do inquérito policial.

O caso tramita na esfera criminal como investigação de roubo majorado e tentativa de estelionato eletrônico. De acordo com o documento da Defensoria, as imagens das congressistas foram inseridas ao lado de outras quatro fotos de mulheres, sem que houvesse qualquer indício de participação das parlamentares no crime. O órgão sustenta que o critério de seleção utilizado pela autoridade policial baseou-se exclusivamente na identidade de gênero e raça, configurando o que especialistas chamam de perfilamento discriminatório.A deputada Duda Salabert enviou um ofício à Secretaria de Defesa Social de Pernambuco exigindo a retirada imediata das fotos e a identificação dos responsáveis pela elaboração do álbum. Em suas redes sociais, a parlamentar afirmou que o episódio não pode ser lido como um erro pontual, mas como uma evidência de falha estrutural. “Isso não é investigação. É racismo e transfobia institucional. É assim que o sistema erra e coloca inocentes como suspeitas”, declarou a deputada mineira.

Erika Hilton também se manifestou e cobrou explicações da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB). A parlamentar ressaltou que a utilização de figuras públicas em listas de reconhecimento demonstra a fragilidade dos bancos de dados utilizados pelas forças de segurança estaduais. Para a defesa das deputadas, a prática compromete a validade jurídica de qualquer reconhecimento feito pela vítima, uma vez que o processo de escolha das fotos foi viciado por critérios subjetivos e estigmatizantes.

Em nota, a Polícia Civil de Pernambuco informou que assegura a apuração rigorosa dos fatos e a adoção de medidas cabíveis. A instituição declarou que reforça continuamente diretrizes e protocolos voltados à orientação de seus servidores para uma atuação ética e livre de preconceitos. Entretanto, a corporação não detalhou como as fotos de duas autoridades federais, residentes em outros estados, foram parar em um catálogo de suspeitos de crimes patrimoniais na capital pernambucana.

Especialistas em segurança pública alertam que o reconhecimento fotográfico sem diretrizes rígidas é uma das principais causas de erros judiciários no Brasil. Decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceram que esse método deve ser apenas uma etapa inicial, necessitando de outras provas para fundamentar uma condenação. A inclusão de pessoas sem ficha criminal ou vínculo com o fato investigado em álbuns policiais fere o princípio da dignidade humana e expõe cidadãos a riscos desnecessários.

O episódio ocorre em um momento de tensão política envolvendo direitos de pessoas trans no Congresso Nacional. Recentemente, as parlamentares enfrentaram embates sobre a validade de identidades de gênero em documentos oficiais e em comissões temáticas. O uso de suas imagens em um contexto de criminalidade é visto por aliados políticos como uma tentativa de deslegitimação de suas trajetórias públicas. O Conselho de Ética da Câmara e órgãos de direitos humanos devem acompanhar os desdobramentos da investigação interna em Pernambuco.

A repercussão do caso evidencia o impacto social do uso indevido de tecnologias e bancos de dados pelo Estado. Politicamente, a denúncia fortalece o debate sobre a necessidade de regulamentação do reconhecimento fotográfico para evitar o racismo institucional e o perfilamento de minorias. Economicamente, processos indenizatórios por danos morais contra o Estado podem ser o desdobramento jurídico natural, onerando os cofres públicos devido a falhas em protocolos básicos de investigação policial.

O Metropolitano

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