Depois de supostas fraudes em emendas parlamentares, agora denúncia de salários milionários cercam a Igreja da Lagoinha

André Valadão e o pastor Luiz Fernando de Souza – Reprodução Instagram
Luciano Meira

O pastor Luiz Fernando de Souza anunciou o desligamento da Igreja Batista da Lagoinha durante um culto em São Leopoldo (RS). O religioso afirmou que membros da cúpula da instituição recebem salários mensais de até R$ 1 milhão. Souza criticou a gestão financeira da denominação, atualmente presidida por André Valadão. Ele relatou que unidades locais enfrentam dificuldades orçamentárias enquanto a diretoria global concentra recursos vultosos.

A Igreja Batista da Lagoinha iniciou as atividades em 1957 e consolidou-se sob a liderança de Márcio Valadão a partir de 1972. A instituição expandiu-se para centenas de sedes no Brasil e no exterior, tornando-se uma das maiores denominações evangélicas do país. A sucessão familiar em 2022 transferiu o comando para André Valadão. O crescimento da entidade coincidiu com a ampliação de sua influência nos setores político e financeiro nacionais.A Polícia Federal prendeu o pastor e advogado Fabiano Zettel na Operação Compliance Zero. Zettel é cunhado de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master e figura central em investigações sobre o sistema financeiro. As autoridades apuram a participação de Zettel em um esquema de lavagem de dinheiro e organização criminosa. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações suspeitas de R$ 99,4 milhões ligadas ao advogado.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), solicitou esclarecimentos ao senador Carlos Viana (Republicanos-MG). O magistrado investiga a destinação de R$ 3,7 milhões em emendas parlamentares à Fundação Oásis, braço social da Lagoinha. Informações preliminares indicam que os recursos atenderam apenas cinco idosos em uma cidade mineira. Viana deve detalhar a execução dos valores e comprovar a finalidade pública dos repasses realizados à entidade religiosa.

Investigações paralelas da Polícia Federal conectam o grupo de Daniel Vorcaro a fraudes contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O esquema utilizava estruturas bancárias para ocultar valores oriundos de descontos indevidos em benefícios de aposentados. Parlamentares que acompanham o caso afirmam que houve tentativas de blindagem política da Fundação Oásis durante fiscalizações anteriores. Carlos Viana nega irregularidades e sustenta que as emendas seguiram os trâmites legais de indicação.

A Igreja da Lagoinha afastou Fabiano Zettel de suas funções após a decretação de sua prisão preventiva. A instituição não comentou oficialmente as declarações de Luiz Fernando de Souza sobre a folha de pagamento da diretoria. Especialistas em Direito Tributário afirmam que a imunidade fiscal de templos não isenta as entidades de fiscalização sobre a origem e o destino de recursos privados e públicos. O Ministério Público Federal acompanha os desdobramentos das operações financeiras.

O caso gera repercussões diretas na confiança de fiéis e na imagem pública de instituições religiosas brasileiras. A exposição de rendimentos milionários em entidades isentas de tributos reacende o debate sobre a transparência contábil no setor. Politicamente, a investigação sobre emendas parlamentares pode resultar em critérios mais rígidos para a transferência de verbas federais a organizações não governamentais ligadas a igrejas. A conexão entre bancos e lideranças religiosas reforça a vigilância contra crimes financeiros.

O impacto econômico dessas investigações afeta o mercado de capitais e a credibilidade de instituições financeiras citadas nos inquéritos. A simbiose entre poder político, capital financeiro e influência religiosa testa a eficácia dos órgãos de controle do Estado. O desfecho dos processos no STF e na Justiça Federal definirá a extensão das responsabilidades criminais dos envolvidos. A sociedade demanda agora uma prestação de contas rigorosa sobre o uso de dinheiro público em projetos assistenciais.

O Metropolitano

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