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Tarifaço dos EUA ameaça 4,1 mil produtos brasileiros e amplia embate político

Governo aposta em negociações diplomáticas, enquanto audiência pública nos Estados Unidos reúne setor produtivo e o senador Flávio Bolsonaro

Arquivo RMC

Luciano Meira

A possível imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos poderá atingir cerca de 4,1 mil itens exportados pelo Brasil, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A medida preocupa empresas exportadoras e amplia o desgaste político em torno da condução das relações entre os dois países.

A estimativa da CNI indica que a sobretaxa poderá afetar uma parcela expressiva da pauta de exportações brasileiras para o mercado norte-americano. O setor industrial avalia que a medida reduzirá a competitividade dos produtos nacionais e poderá provocar perdas econômicas caso seja confirmada pelo governo dos Estados Unidos.

Durante a audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), o governo brasileiro optou por não se inscrever para realizar manifestação oficial. A estratégia adotada foi enviar representantes como observadores e manter as negociações por meio dos canais diplomáticos entre Brasília e Washington.

Em sentido oposto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) solicitou inscrição para participar da audiência e informou que defenderia a suspensão das tarifas. O parlamentar afirmou que mantém interlocução com integrantes do governo norte-americano e declarou, em tom de extremo cinismo, acreditar que pode contribuir para uma solução negociada da crise comercial.

As declarações do senador provocaram críticas de integrantes da base governista e de adversários políticos. Para esses grupos, ao afirmar que possui capacidade de influenciar diretamente a decisão da Casa Branca, ele tenta transmitir a imagem de que dispõe de um canal privilegiado para reverter medidas que foram adotadas a pedido de aliados de seu pai e pelo irmão, o ex-deputado foragido Eduardo Bolsonaro, junto a setores da administração norte-americana.

Nos últimos meses, Eduardo Bolsonaro intensificou contatos com parlamentares e autoridades dos Estados Unidos, defendendo sanções contra autoridades brasileiras e manifestando apoio à adoção de medidas previstas na Lei Magnitsky contra integrantes do Judiciário. A atuação do ex-parlamentar passou a ser apontada por integrantes do governo Lula e por parlamentares da base como um dos fatores que contribuíram para o agravamento da tensão diplomática entre os dois países. Aliados dos Bolsonaros rejeitam essa interpretação e afirmam que suas iniciativas têm como objetivo denunciar o que classificam como violações de direitos e garantias fundamentais no Brasil, como se Jair e Eduardo não houvessem sido condenados justamente por atacar direitos e garantias fundamentais.

As declarações de Flávio Bolsonaro também foram interpretadas por adversários políticos como uma tentativa de associar a eventual reversão das tarifas à atuação da oposição, esquecendo que nem mesmo no ambiente doméstico ele tem este poder, enquanto o governo federal sustenta que a solução deve ocorrer exclusivamente por meio da diplomacia oficial conduzida pelo Estado brasileiro.

O Palácio do Planalto mantém a avaliação de que as negociações técnicas e diplomáticas representam o caminho mais eficaz para evitar prejuízos ao comércio bilateral. O governo também argumenta que a participação institucional do Brasil no processo deve ocorrer por intermédio dos órgãos oficiais responsáveis pela política externa, sem delegação dessa função a agentes políticos sem mandato diplomático.

Enquanto o embate político se intensifica, o setor produtivo acompanha a evolução das negociações com preocupação. Para a indústria brasileira, a prioridade permanece a suspensão da eventual tarifa, diante do impacto potencial sobre milhares de produtos exportados e sobre empresas que têm os Estados Unidos como um de seus principais mercados.

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