Zema silencia sobre exoneração de Rossieli, denúncias de superfaturamento e uso indevido de verbas

A exoneração do secretário de Educação Rossieli Soares, em meio a graves acusações de má gestão e favorecimento à iniciativa privada, expõe as contradições do discurso de Zema

Romeu Zema (Novo) – Foto: Arquivo RMC

Luciano Meira

A exoneração de Rossieli Soares do cargo de secretário de Educação de Minas Gerais, oficializada nesta semana, ocorre em um cenário de intensas pressões políticas e denúncias de irregularidades na gestão de verbas públicas. O governador Romeu Zema (Novo), que durante suas campanhas e mandato sempre enfatizou a seleção técnica e a eficiência administrativa como pilares de sua gestão, enfrenta agora o desgaste de ter nomeado um quadro com antecedentes controversos. Rossieli Soares, ex-ministro da Educação e ex-secretário em São Paulo e no Amazonas, já era alvo de condenações judiciais, críticas e investigações antes de assumir a pasta mineira, fato que não impediu sua nomeação pelo chefe do Executivo estadual.

A exoneração em princípio anunciada como consensual, teve sua versão mudada após nota do governo nformar que havia um procedimento de investigação na Controladoria Geral do Estado – CGE sobre supostas irregularidades cometidas pelo secretário, que em nota negou esta versão do governo.

Nesta quarta-feira (29), o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) determinou, que a Controladoria-Geral do Estado (CGE) encaminhe no prazo de cinco dias ao órgão todos os documentos e informações sobre a investigação que levou à exoneração do ex-secretário de Educação, Rossieli Soares. O descumprimento pode resultar em multa diária, conforme previsto na legislação.

O estopim para a crise na educação mineira envolve denúncias de sobrefaturamento na compra de materiais escolares e irregularidades em despesas destinadas a escolas entregues à iniciativa privada através do projeto Somar. A deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) havia formalizado denúncias que apontavam o uso indevido de verbas públicas para beneficiar organizações que gerem escolas estaduais, enquanto o restante da rede enfrenta carências básicas. Cerqueira também questionou os valores praticados em licitações de kits escolares, cujos preços, R$ 348 milhões, estariam significativamente acima dos praticados no mercado.

A medida foi tomada no âmbito de representações em análise no Tribunal, que apuram possíveis irregularidades na Secretaria de Estado de Educação. Entre os indícios levantados estão a falta de processo licitatório, suspeitas de superfaturamento e pagamentos irregulares.

A gestão de Rossieli Soares foi marcada pela aceleração da política de privatização e parcerias com o setor privado, modelo defendido por Zema como solução para a infraestrutura escolar. No entanto, as fiscalizações legislativas revelaram que recursos vultosos foram alocados para essas unidades geridas por entidades privadas, muitas vezes em detrimento de investimentos em escolas de gestão direta. O contraste entre o aporte financeiro nas unidades do projeto Somar e a precariedade de outras instituições de ensino gerou críticas sobre a equidade na distribuição do orçamento da educação mineira.

A escolha de Rossieli para o cargo, apresentada à época como um trunfo técnico de “peso nacional”, agora é lida como um erro político, ou quem sabe o real motivo, que compromete a imagem de suposta “limpeza” do governo Zema. O histórico do ex-secretário, que inclui processos e questionamentos sobre contratos, era de conhecimento público. Ao trazê-lo para o primeiro escalão em Minas, Zema vinculou sua imagem a um modelo de gestão que agora é investigado por eventuais prejuízos aos cofres públicos mineiros.

A repercussão do caso no cenário político é de isolamento do agora ex-secretário, mas também de cobrança direta ao governador Mateus Simões (PSD). Romeu Zema, contudo, mantém uma postura de distanciamento público em relação ao escândalo. Até o fechamento desta matéria, o governador não utilizou suas redes sociais — ferramenta central em sua comunicação política — para explicar a saída de Rossieli ou comentar as denúncias que agora o MPMG e o TCE estão investigando. O silêncio digital do governador é i uma tentativa estratégica de desvincular sua imagem das irregularidades apontadas na pasta, apostando na falta de memória da população.

Entidades representativas dos trabalhadores em educação e movimentos sociais intensificaram os pedidos de auditoria completa nos contratos firmados durante a gestão de Soares. O Ministério Público de Minas Gerais acompanha as denúncias de Beatriz Cerqueira e avalia a abertura de inquéritos civis para apurar o dano ao erário. O governo estadual, por meio de notas oficiais, limita-se a informar que a saída do secretário foi motivada por razões pessoais e que as contas da educação passam por fiscalização rigorosa dos órgãos de controle.

O impacto deste escândalo transcende a área educacional e atinge em cheio o discurso político de Zema. A alegada “gestão técnica” sofre um abalo significativo ao ser confrontada com indícios de uso indevido de verbas e nomeações políticas de risco, fragilizando a narrativa que tenta sustentar sua influência em nível nacional.

O Metropolitano

Jornalismo profissional e de qualidade. Seu portal de notícias da Região Metropolitana de Belo Horizonte, de Minas Gerais, do Brasil e do Mundo. Proibida a reprodução total ou parcial, sem autorização prévia do O Metropolitano. Lei nº 9610/98
Botão Voltar ao topo