O enigma de “Rodrigo Porcina”: o candidato ao governo de Minas que foi sem nunca ter sido
Equilibrando-se entre as mágoas do Planalto e a sombra de Alcolumbre, senador vê sua suposta candidatura ao Palácio Tiradentes escapar por entre os dedos

Luciano Meira
Na antológica teledramaturgia brasileira, a Viúva Porcina era consagrada como aquela “que foi sem nunca ter sido”. Décadas depois, o clássico de Roque Santeiro ganha um remake da vida real na política mineira. O protagonista da vez é o senador, Rodrigo Pacheco (PSB), que consegue a proeza de liderar especulações para o Governo de Minas Gerais em 2026 agindo exatamente como a icônica personagem: o candidato que caminha para o fim do prazo sem jamais ter saído do armário da indefinição.
O mais recente balde de água fria nas pretensões ensaiadas de Pacheco veio de onde ele, talvez, ainda mais esperava afago. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, foi a público selar o destino do senador, garantindo categoricamente que ele optou por não disputar o Palácio Tiradentes. A fala caiu como uma bomba no xadrez político e gerou uma onda imediata de reações desencontradas entre petistas mineiros e os remanescentes aliados do parlamentar.
Oficialmente, o entorno de Pacheco tenta manter a pose de quem ainda dita o ritmo do relógio. Interlocutores do senador correram para avisar que nada está fechado e que ele “ainda aguarda uma reunião com o presidente Lula” para bater o martelo. Resta saber se o presidente da República, ocupado com os nós de sua própria governabilidade, tem na agenda tempo para o tradicional “papo de comadres” que o mineiro tanto gosta de prolongar.
O preço da dubiedade e a sombra de Alcolumbre
A postura de cima do muro de Rodrigo Pacheco não é fruto do acaso, mas sim do reflexo de suas companhias de poder em Brasília. O senador mineiro opera em simbiose com seu padrinho político e atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O problema é que, para o Palácio do Planalto, a grife Alcolumbre tornou-se sinônimo de pouca confiabilidade e muita traição.
O ápice desse desconforto se deu no recente e histórico episódio da rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre capitaneou nos bastidores uma acentuada “birra” institucional contra a escolha do governo, culminando em uma derrota inédita para Lula no plenário da Casa. Nos corredores de Brasília, o recado foi claro: enquanto Alcolumbre bombardeava os planos do Planalto, Pacheco assistia a tudo de braços cruzados, lavando as mãos com a típica discrição mineira que, neste caso, foi interpretada pura e simplesmente como cumplicidade.
Como Lula haveria de estender o tapete vermelho em Minas para o principal aliado do homem que lhe impôs um vexame histórico no Judiciário? O PT cansou de esperar o jogo duplo terminar.
O blefe mineiro perde o prazo
O ensaio de candidatura de Pacheco parece ter cansado até o mais paciente dos estrategistas. Ao se comportar como um mistério insondável, o presidente do Senado esticou a corda até que ela arrebentasse pelas mãos do próprio PT, que já começa a costurar outras alternativas em Minas Gerais para não ficar refém do eterno suspense do senador.
Pacheco acreditou que seu charme institucional e o silêncio enigmático seriam suficientes para obrigar as forças de esquerda e centro a aguardarem sua autoproclamação. Esqueceu-se de que, na política real, quem muito se esconde acaba esquecido. Sem o apoio enfático do Planalto e emparedado pela desconfiança que ele mesmo cultivou ao blindar os excessos de Alcolumbre, o senador arrisca-se a terminar o ano sem a vaga no governo e sem o protagonismo que julgava ter.
No fim das contas, a certidão de candidatura de Rodrigo Pacheco corre o risco de ser tão fictícia quanto o casamento da mítica viúva de Asa Branca.
