Barrado no baile: Zema é deconvidado de evento do Novo em Santa Catarina após crise com bolsonaristas
Diretório estadual ameaça se opor à candidatura presidencial do ex-governador e expõe divisão interna no partido

Luciano Meira
A crise entre Romeu Zema (Novo) e setores da direita alinhados ao bolsonarismo ganhou um novo capítulo neste fim de semana. O diretório do Novo em Santa Catarina decidiu retirar o convite feito ao ex-governador de Minas Gerais para participar do Encontro Estadual do partido, marcado para 4 de julho, em Joinville. A decisão ocorre após uma sequência de críticas de Zema ao senador Flávio Bolsonaro (PL), hoje principal nome do campo bolsonarista na disputa presidencial de 2026.
O episódio representa um dos movimentos mais explícitos de contestação interna enfrentados por Zema desde que lançou sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto. Santa Catarina é considerado um dos principais redutos eleitorais da direita e uma das bases mais organizadas do Novo no país.
Segundo o presidente estadual da legenda, Kahlil Elias Assib Zattar, o convite foi retirado em razão dos sucessivos atritos provocados pelas declarações do ex-governador contra Flávio Bolsonaro. Em nota divulgada pelo diretório catarinense, os dirigentes afirmaram que a postura adotada por Zema tem prejudicado a unidade do campo conservador.
A manifestação foi além do desconforto político. O diretório estadual informou que poderá se posicionar contra a indicação de Zema como candidato presidencial do Novo caso não haja mudanças na condução da pré-campanha e na estratégia de comunicação do ex-governador. Embora a nota tenha sido posteriormente retirada dos canais oficiais, dirigentes confirmaram que o conteúdo continua refletindo a posição da direção estadual.
A origem da crise está nas declarações feitas por Zema sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do antigo Banco Master. Em entrevista ao canal Brasil Paralelo, o ex-governador afirmou que pessoas que mantêm proximidade com figuras acusadas de irregularidades devem ser vistas com cautela. Ao comentar o caso, disse que teria dificuldade em aplaudir alguém que se aproxima de “um banqueiro bandido”.
As críticas provocaram reação imediata de aliados do senador. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro defendeu publicamente o rompimento das alianças entre PL e Novo, afirmando que Zema estaria atacando Flávio por interesses eleitorais. “Por mim, rompia geral com o Partido Novo”, escreveu nas redes sociais
Em Santa Catarina, a repercussão teve peso adicional devido à proximidade política entre as duas legendas. O Novo e o PL mantêm uma aliança estratégica no estado. O prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), é apontado como possível candidato a vice-governador em uma chapa liderada pelo governador Jorginho Mello (PL). Além disso, dirigentes do Novo reconhecem que o partido recebeu apoio político do governador catarinense na formação de suas chapas proporcionais.
O desconforto dos dirigentes catarinenses não é novo. Desde maio, setores do Novo em Santa Catarina e no Paraná vêm demonstrando insatisfação com a estratégia de confronto adotada por Zema em relação ao grupo Bolsonaro. A avaliação de parte dessas lideranças é que o ex-governador corre o risco de isolar sua candidatura justamente no momento em que busca ampliar espaço nacional.
O episódio ocorre em um momento delicado para o presidenciável. Pesquisas recentes mostram que Zema permanece com índices modestos de intenção de voto e enfrenta dificuldades para converter projeção nas redes sociais em apoio eleitoral consistente. Ao mesmo tempo, cresce a pressão de dirigentes regionais para que o Novo preserve alianças com outras forças da direita, especialmente com o PL, em estados considerados estratégicos para as eleições de outubro.
A retirada do convite em Santa Catarina transforma uma divergência que vinha sendo tratada nos bastidores em um conflito público dentro do próprio partido. Mais do que um episódio regional, o caso evidencia as dificuldades de Zema para consolidar sua liderança nacional e revela as tensões entre a estratégia de candidatura própria do Novo e a pressão de setores que defendem maior aproximação com o bolsonarismo.


