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Novo usa briga de família para tirar candidatura Zema da UTI

Sem conseguir transformar desempenho eleitoral em tração política, o Novo parece enxergar na disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro uma oportunidade para manter viva a candidatura de Romeu Zema

Christopher Laguna- Reprodução Redes Sociais

Luciano Meira

Há partidos que constroem candidaturas apresentando propostas. Outros preferem aguardar uma briga na casa do vizinho para tentar encontrar uma fresta. O Novo parece ter escolhido o segundo caminho. A celebração em rede social feita pelo presidente estadual da legenda em Minas, Christopher Laguna, às críticas de Michelle Bolsonaro contra Flávio Bolsonaro sugere menos preocupação com a disputa dentro do PL e mais interesse em aproveitar qualquer rachadura que possa abrir espaço para Romeu Zema.

O momento ajuda a entender a estratégia. Dias antes, Zema havia sido desconvidado do Encontro Estadual do Novo em Santa Catarina, depois de intensificar os ataques a Flávio Bolsonaro. A justificativa do diretório catarinense foi explícita: se não houver mudança na condução política e na comunicação do ex-governador, sua própria indicação como candidato à Presidência poderá ser contestada. Ou seja, antes mesmo de convencer o eleitorado, Zema precisa convencer parte do próprio partido de que sua candidatura faz sentido.

É nesse ambiente que a fala de Christopher Laguna ganha outro significado. Ao aproximar Michelle Bolsonaro de Zema, o dirigente mineiro não apenas toma partido em uma disputa envolvendo o PL. Ele envia um recado para dentro do Novo: Minas continua fechada com seu presidenciável, ainda que Santa Catarina tenha decidido puxar o freio. A caravana organizada por filiados mineiros para comparecer ao encontro catarinense reforça essa leitura. Mais do que uma viagem, trata-se de uma tentativa de transformar um evento partidário em demonstração pública de apoio a um candidato que hoje enfrenta resistência interna.

A ironia é que a aposta parece depender menos da força de Zema do que das dificuldades dos outros. Em vez de ocupar espaço por desempenho próprio, o cálculo parece ser o de que uma eventual divisão entre Michelle e Flávio Bolsonaro possa abrir alguma avenida na direita. É uma estratégia legítima na política, mas pouco confortável para quem pretende vender a imagem de gestor eficiente. Afinal, gestores costumam preferir indicadores positivos aos tropeços da concorrência.

O problema é que os indicadores disponíveis ainda não oferecem muito entusiasmo. Embora Zema tenha ampliado sua exposição nacional, seu desempenho nas pesquisas continua distante do protagonismo esperado para um presidenciável competitivo. Em diversos levantamentos, ele permanece atrás dos principais nomes do campo da direita e ainda precisa converter notoriedade em intenção efetiva de voto. Nesse contexto, a crise interna do Novo deixa de ser um detalhe organizacional e passa a representar um obstáculo político adicional.

No fim das contas, o Novo corre o risco de transformar uma disputa doméstica do PL em sua principal estratégia eleitoral. Mas há uma diferença entre aproveitar oportunidades e depender delas. Se a candidatura de Zema precisar que Michelle e Flávio continuem brigando para ganhar relevância, talvez o maior adversário do ex-governador não esteja no PT, no PL ou em qualquer outro partido. Talvez esteja justamente na dificuldade de convencer o próprio Novo de que seu projeto presidencial consegue caminhar com as próprias pernas.

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