Rubio rejeita apelo de Flávio e mantém ‘Tariflávio’ dos EUA contra o Brasil
Senador tenta convencer secretário de Estado a rever tarifaço, mas resposta mantém posição americana e expõe mudança de estratégia do grupo bolsonarista após meses de articulações em Washington

Luciano Meira
A tentativa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de convencer o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, a rever o tarifaço imposto a produtos brasileiros, apelidado de Tariflávio, terminou sem sucesso. Em resposta à carta enviada pelo parlamentar, Rubio agradeceu o apoio político recebido, mas reafirmou a posição do governo americano, frustrando a expectativa de um recuo na política comercial adotada por Washington.
A resposta marca uma mudança de cenário para o núcleo político ligado a candidatura e Flávio nos EUA. Nos meses anteriores ao anúncio das tarifas, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo divulgaram sucessivas reuniões com integrantes do governo Donald Trump, parlamentares republicanos e representantes da diplomacia americana. Os dois afirmavam atuar para pressionar autoridades brasileiras e defendiam a adoção de tarifas comerciais e sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do governo federal, que após haverem sido impostas foi comemorada nas redes sociais pelo bolsonarismo.
Além das articulações pela aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo também defenderam publicamente sanções contra outras autoridades brasileiras, entre elas o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em entrevistas, vídeos e publicações nas redes sociais, ambos apresentavam essas iniciativas como parte de uma estratégia de pressão internacional sobre o governo brasileiro, supostamente justificada pela condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de estado.
Paulo Figueiredo, neto do último ditador que ocupou a presidência, João Figueiredo, tornou-se um dos principais interlocutores do bolsonarismo em Washington. Radicado nos Estados Unidos, participou de reuniões com integrantes do governo americano ao lado de Eduardo Bolsonaro e passou a divulgar as articulações como demonstração da influência do grupo junto à administração Trump.
Paulo Figueiredo é conhecido da Justiça brasileira e da norte-americana, apesar de ainda não haver sido condenado criminalmente no Brasil. Ele é alvo de investigações e processos no Supremo Tribunal Federal (STF), e seus julgamentos estão pendentes devido a impasses na notificação oficial por residir nos Estados Unidos.
Os processos que envolvem seu nome no Brasil e no exterior incluem:
Trama Golpista: Denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no STF por participação em organização criminosa, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. No entanto, sua denúncia é a única do grupo que ainda não foi deliberada pela primeira turma da Corte, pois aguarda o cumprimento de uma carta rogatória (pedido formal) para notificá-lo oficialmente nos EUA.
Coação no Processo: A PGR também o denunciou, juntamente com Eduardo Bolsonaro, pelo crime de coação no curso do processo, sob a acusação de fazer lobby no exterior e levar informações falsas contra o judiciário brasileiro. Neste processo o ex-deputado Eduardo Bolsonaro já foi condenado por unanimidade no STF a 4 anos e 2 meses de prisão e perda dos direitos políticos por oito anos.
Fraudes e Investigações nos EUA: Além das acusações no Brasil, Figueiredo foi multado em R $102 milhões e é investigado pela Justiça norte-americana por suspeita de fraude ligada à construção do Trump Hotel e por recebimento de transferências fraudulentas.
Depois do anúncio das tarifas, porém, o foco da discussão política mudou. Representantes do setor produtivo passaram a alertar para os impactos da medida sobre exportações brasileiras, investimentos e empregos. Ao mesmo tempo, pesquisas de opinião registraram rejeição da maioria da população ao tarifaço, que associoiu a estratégia internacional do bolsonarismo ao agravamento da crise entre Brasil e Estados Unidos.
Foi nesse contexto que Flávio Bolsonaro encaminhou carta a Marco Rubio pedindo que os produtos brasileiros fossem poupados das tarifas. Na correspondência, o senador argumentou que a medida atingiria empresas e trabalhadores brasileiros e pediu uma reavaliação da decisão americana.
A resposta do secretário de Estado, entretanto, manteve a pressão sobre o Brasil. Rubio agradeceu a manifestação de Flávio Bolsonaro, mas reafirmou a posição do governo americano em relação às medidas adotadas, sinalizando que a carta não produziu efeito prático sobre a política comercial anunciada por Washington.
A sequência dos acontecimentos expôs uma trapalhada política/diplomática. Enquanto Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo passaram meses divulgando encontros com autoridades americanas e defendendo medidas de pressão contra empresas e integrantes do Estado brasileiro, com apoio de Flávio e seus correligionários no Brasil, coube agora a Flávio tentar convencer, aparentemente sem sucesso, o mesmo governo americano a aliviar uma medida que passou a preocupar empresários, exportadores e trabalhadores brasileiros.
Os Bolsonaro e seus apoiadores negam ter defendido prejuízos econômicos ao Brasil dizendo que sempre buscaram responsabilizar apenas autoridades específicas, mas as articulações internacionais promovidas pelo bolsonarismo e seus aliados, amplamente divulgadas e comemoradas em redes sociais, seguramente contribuíram para deteriorar a relação bilateral e ampliar a crise diplomática e comercial com os Estados Unidos, colocando em risco além da geração de empregos e renda de produtos de exportação o PIX.


