Ministério do Trabalho confirma interdição de pilhas de rejeito da Sigma Lithium no Jequitinhonha
Três das cinco estruturas da mineradora de lítio em MG apresentam fator de segurança abaixo do limite, com risco de colapso para comunidades e rios

Luciano Meira
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) confirmou nesta quinta-feira (15) a interdição de três das cinco pilhas de rejeito e estéril da Sigma Lithium, maior mineradora de lítio do Brasil, localizada no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. A decisão administrativa, mantida após recursos da empresa, decorre de inspeções que identificaram fator de segurança inferior a 1,3, norma mínima para tais estruturas, além de rupturas parciais e falta de monitoramento adequado.
Motivos da interdição
Auditores fiscais do MTE constataram em novembro de 2025, durante inspeção in loco, que as pilhas atingem 40 metros de altura e apresentam riscos de colapso, com projeção de rejeitos a até 120 metros de distância. As estruturas, formadas por resíduos de lavra (estéril rochoso) e beneficiamento do minério de lítio (rejeito), estão próximas a uma escola infantil, comunidades como Poço Dantas e Ponte do Piauí, e ao rio Piauí.
A Sigma tentou reverter a medida com novos laudos, mas os auditores rejeitaram os documentos por utilizarem metodologia diferente e apontaram ausência de plano de operação, sinalização de segurança, capacitação de trabalhadores e licença ambiental específica para as pilhas. A interdição, inicial em dezembro de 2025, agora deixa à empresa a opção de adequação ou recurso judicial.
Contexto da Sigma Lithium e impactos
A Sigma Lithium opera a mina Grota do Cirilo, em Araçuaí (MG), focada na extração de lítio para baterias de veículos elétricos, mas enfrenta crises operacionais desde outubro de 2025, com suspensão da lavra devido à queda nos preços internacionais do mineral. A mineradora destaca que suas pilhas diferem de barragens tradicionais, como as de Mariana e Brumadinho, por não usarem rejeitos lamacentos, e afirma manter conformidade com normas de segurança.
A operação já acumula controvérsias: em dezembro de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) acionou judicialmente a empresa por danos socioambientais, pedindo R$ 50 milhões em indenizações, reassentamento de famílias, nova estrada de acesso e auditorias independentes por poeira, ruído e vibrações que afetam mais de 100 famílias quilombolas. Protestos e ações do MPF questionam licenças ambientais fragmentadas e greenwashing em propagandas de sustentabilidade.
Resposta da empresa e cenário econômico
Em nota, a Sigma Lithium informou manter diálogo com o MTE, apresentando laudos e dados para comprovar segurança, e negou impactos operacionais imediatos da autuação. A recente alta nos preços do lítio impulsiona planos de retomada, com a mineradora reportando geração de caixa de US$ 11 milhões em janeiro de 2026 e avanços na Mina 1.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) não interditou as pilhas previamente, apesar de fiscalizações, o que levanta questionamentos sobre coordenação regulatória. Com a interdição, a capacidade produtiva da Sigma fica limitada, afetando metas de expansão em um mercado volátil para o lítio essencial à transição energética global.
