Bar atingido por incêndio na Suíça não era inspecionado desde 2020
Tragédia em Crans-Montana deixa 40 mortos e expõe falhas em vistorias de segurança contra incêndio no bar Le Constellation

Luciano Meira
O bar Le Constellation, onde um incêndio na madrugada de Ano-Novo matou 40 pessoas e deixou mais de 110 feridos em Crans-Montana, nos Alpes suíços, não passava por inspeções de segurança contra incêndio desde 2020, segundo autoridades locais. O prefeito da estação de esqui, Nicolas Féraud, admitiu em coletiva de imprensa que as vistorias periódicas previstas entre 2020 e 2025 simplesmente não foram realizadas, classificando a falha como um “fardo” que carregará pelo resto da vida.
O que se sabe sobre a tragédia
O incêndio ocorreu na madrugada de 1º de janeiro, durante uma festa de Ano-Novo no porão do Le Constellation, ponto de encontro popular em Crans-Montana, resort de inverno no cantão de Valais. As chamas se espalharam rapidamente no ambiente fechado, provocando pelo menos 40 mortes e deixando entre 115 e 119 feridos, muitos em estado grave, em um dos piores desastres recentes do país.
Relatos de sobreviventes e imagens registradas no local mostram cenas de pânico, com pessoas tentando quebrar janelas para fugir e correndo pelas ruas com queimaduras extensas. Legistas enfrentam dificuldades para identificar todas as vítimas devido ao estado dos corpos, e autoridades alertam que o número final de mortos ainda pode ser atualizado.
Falha em inspeções e mea-culpa das autoridades

Em entrevista coletiva, o prefeito Nicolas Féraud reconheceu que nenhum controle periódico de segurança foi feito no bar entre 2020 e 2025, apesar de o município ter realizado mais de 1,4 mil inspeções de incêndio em outros estabelecimentos apenas em 2025. Segundo ele, a prefeitura só percebeu a lacuna ao revisar, após a tragédia, a documentação enviada ao Ministério Público do cantão de Valais, que investiga o caso.
Féraud afirmou “lamentar profundamente” a falha do poder público e disse que o município tem “uma dívida com as famílias” das vítimas. A câmara local atribuiu parte do problema ao número reduzido de fiscais — cerca de cinco pessoas responsáveis por vistoriar mais de 10 mil edifícios, entre hotéis, restaurantes e outros espaços abertos ao público —, embora não tenha explicado por que o Le Constellation ficou fora das listas de inspeção nos últimos anos.
Suspeita sobre causa do fogo
Vídeos gravados por frequentadores e relatos recolhidos pela Promotoria do Valais indicam que o incêndio pode ter começado quando velas pirotécnicas, do tipo “fontes de faíscas” presas a garrafas de champanhe, alcançaram ou se aproximaram demais do teto do bar. No local, o forro era recoberto com espuma antirruído, material que, segundo investigadores, teria alimentado uma combustão extremamente rápida, transformando o ambiente em uma espécie de “bola de fogo”.
Autoridades suíças descreveram o fenômeno como próximo de um “flashover”, termo técnico usado quando, em poucos segundos, praticamente todos os materiais de um ambiente passam a pegar fogo simultaneamente. Até o momento, a Promotoria trata o caso como incêndio acidental, afastando, por ora, a hipótese de ataque deliberado.
Investigações e responsabilizações
A polícia abriu investigação criminal contra o casal francês que geria o Le Constellation, por suspeitas de homicídio por negligência, lesões corporais por negligência e incêndio culposo. Os proprietários serão ouvidos sobre o uso de artefatos pirotécnicos em ambiente fechado, possíveis irregularidades estruturais e o cumprimento de normas de segurança, como rotas de fuga, saídas de emergência e capacidade máxima do local.
Paralelamente, cresce a pressão sobre as autoridades municipais e cantonais, acusadas de fiscalização deficiente e de não terem garantido as inspeções anuais previstas para estabelecimentos de alto risco. O governo do cantão de Valais prometeu apoio financeiro e psicológico às famílias das vítimas, enquanto a administração de Crans-Montana se comprometeu a colaborar com todas as etapas da investigação.
Medidas anunciadas após o desastre
Como resposta imediata, a prefeitura de Crans-Montana anunciou a contratação de uma agência externa especializada para realizar inspeções em todos os estabelecimentos abertos ao público no município. Também foi decretada a proibição do uso de dispositivos pirotécnicos, como velas faíscantes e fogos de artifício, em ambientes fechados, medida que atinge bares, boates, restaurantes e casas de shows.
Autoridades locais afirmam que o objetivo é revisar protocolos de segurança, corrigir eventuais falhas no sistema de fiscalização e evitar que um episódio semelhante se repita em um destino turístico que recebe milhares de visitantes a cada temporada de esqui. A tragédia reacendeu o debate na Suíça e em outros países europeus sobre regras de prevenção a incêndios em ambientes de entretenimento, especialmente em festas que utilizam efeitos especiais e pirotecnia em espaços confinados.
