Embraer apresenta primeiro caça supersônico Gripen produzido em território nacional
Aeronave montada no interior de São Paulo marca início de fase estratégica com transferência tecnológica

Luciano Meira
A fabricante brasileira Embraer e a sueca Saab apresentam nesta quarta-feira (25), em Gavião Peixoto (SP), o primeiro caça F-39E Gripen montado integralmente no Brasil. A cerimônia, que conta com a participação do presidente Lula, marca a conclusão da primeira unidade das 15 aeronaves previstas para produção nacional. O evento ocorre no aeródromo da companhia, unidade que concentra a linha de montagem final e o centro de ensaios em voo do programa estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).
O projeto é resultado de um contrato firmado em 2014 no governo da presidenta Dilma Roussef (PT), orçado originalmente em 39,3 bilhões de coroas suecas, para a aquisição de 36 caças. O acordo prevê que parte da frota seja produzida no Brasil para garantir a transferência de tecnologia e o domínio de sistemas complexos pela indústria local. Até o momento, a FAB já incorporou 11 unidades fabricadas na Suécia, que operam a partir da Base Aérea de Anápolis (GO). A nova aeronave apresentada hoje é o primeiro exemplar do lote de 15 que passará por todas as etapas de integração em solo brasileiro.
O processo de fabricação em Gavião Peixoto envolve a junção de seções da fuselagem, instalação de sistemas elétricos e eletrônicos, além de testes de motor e pressurização. Segundo o Ministério da Defesa, o programa permitiu o treinamento de mais de 350 engenheiros e técnicos brasileiros na sede da Saab, na Suécia. O governo federal afirma que a iniciativa gera cerca de 2 mil empregos diretos na linha de produção e impacta outros 10 mil postos de trabalho indiretos em toda a cadeia de suprimentos de defesa.
Os dados financeiros do programa indicam uma execução orçamentária rigorosa nos últimos anos. De acordo com o acompanhamento do Senado, o projeto Gripen já consumiu aproximadamente R$ 16,7 bilhões em valores corrigidos desde a sua assinatura. O custo total do contrato, atualizado para valores correntes, é estimado em R$ 29,5 bilhões. Autoridades militares ressaltam que os gastos adicionais registrados em aditivos contratuais referem-se à evolução tecnológica para a terceira geração da aeronave, que inclui sistemas de combate mais avançados e mísseis de longo alcance.
Durante a cerimônia, representantes da FAB destacaram que o Gripen F-39E coloca o Brasil em um grupo restrito de países com capacidade de fabricar aviões supersônicos de alta tecnologia. “Não se trata apenas de adquirir um equipamento, mas de absorver o conhecimento necessário para manter e evoluir essa plataforma de forma autônoma”, afirmou o tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, comandante da Aeronáutica. A aeronave possui capacidade de voar a duas vezes a velocidade do som e conta com mísseis como o Meteor, capaz de atingir alvos além do alcance visual.
A Embraer aproveita a agenda oficial para apresentar também o protótipo do seu “carro voador”, desenvolvido pela subsidiária Eve Air Mobility. O veículo elétrico de decolagem e pouso vertical (eVTOL) integra os planos de diversificação tecnológica da empresa para o mercado de mobilidade urbana. A coincidência das apresentações busca reforçar a imagem da unidade de Gavião Peixoto como um polo de inovação aerospacial. O presidente Lula deve visitar as instalações de ensaio antes de acompanhar a demonstração do novo caça na pista do aeródromo.
As repercussões no setor de defesa indicam que a entrega deste primeiro exemplar nacional deve acelerar as discussões sobre a aquisição de um segundo lote de caças. O governo brasileiro e a Suécia negociam a ampliação do contrato original em 25%, o que poderia adicionar mais nove aeronaves à frota da FAB. Especialistas do setor avaliam que a continuidade do programa é essencial para manter a linha de produção ativa e viabilizar a exportação de componentes ou aeronaves completas para outros países da América Latina no futuro.
A consolidação da produção nacional do Gripen gera impactos significativos para a soberania nacional e para o desenvolvimento da Base Industrial de Defesa (BID). Politicamente, o marco fortalece a autonomia estratégica do país, reduzindo a dependência de fornecedores externos para a manutenção da frota supersônica. Economicamente, o domínio de tecnologias sensíveis fomenta a inovação em setores civis da indústria. Socialmente, o projeto qualifica a mão de obra brasileira em níveis globais, garantindo a permanência de talentos em áreas de alta complexidade tecnológica no interior de São Paulo.
