Freiras italianas criam curso gratuito de autodefesa para mulheres

Iniciativa em Bibbiano, na Emilia-Romagna, vira “caso nacional” ao unir judo, fé e combate à violência de gênero

Foto: PEXELS
Luciano Meira

As freiras salesianas de um instituto católico em Bibbiano, pequena cidade da província de Reggio Emilia, no norte da Itália, criaram um curso gratuito de autodefesa exclusivo para mulheres que rapidamente lotou a quadra do convento. A atividade, pensada como resposta concreta ao aumento da sensação de insegurança e aos casos de violência de gênero no país, recebeu mais de cem inscrições para cerca de sessenta vagas e já tem repetição prevista para a primavera europeia.​

Quem são as freiras e onde fica a escola

O curso acontece no Instituto Santa Maria Ausiliatrice, mantido pelas Filhas de Maria Auxiliadora, congregação salesiana com forte vocação educativa e social que atende cerca de 370 crianças do berçário ao ensino fundamental, além de aproximadamente 80 jovens em cursos profissionais. O colégio e convento ficam em Bibbiano, município de cerca de 10 mil habitantes na região da Emilia-Romagna, a poucos quilômetros de Reggio Emilia, tradicional polo industrial e educacional italiano.​A iniciativa é coordenada principalmente por duas religiosas: a irmã Laura Siani, professora e educadora, e a diretora do instituto, irmã Paola Della Ciana, que decidiram transformar a estrutura da escola em espaço de acolhimento e prevenção voltado diretamente à segurança de meninas e mulheres da comunidade. A proposta insere-se na tradição salesiana de trabalhar com juventude e educação integral, agora adaptada à pauta contemporânea da violência contra as mulheres.​

Como surgiu a ideia do curso

Segundo a irmã Laura, a ideia nasceu após algumas aulas de autodefesa oferecidas no verão europeu aos animadores e animadoras do “Grest”, programa de atividades de férias típico das obras salesianas, que tiveram repercussão inesperadamente positiva entre os participantes. Diante do entusiasmo e em sintonia com o mês dedicado à luta contra a violência de gênero e ao Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, as freiras decidiram abrir a experiência para toda a comunidade feminina.​

O objetivo declarado é trabalhar prevenção como “pilar da missão” do instituto, fortalecendo a autoconfiança e a consciência corporal das mulheres, sem romper com a identidade religiosa da congregação. As religiosas afirmam que desejam oferecer um instrumento concreto para que as participantes reconheçam sua dignidade em qualquer situação e se sintam menos vulneráveis em contextos de risco, inclusive no ambiente doméstico, onde se concentra boa parte dos episódios de violência.​

Como funcionam as aulas de autodefesa

As aulas são ministradas por quatro mestres da associação esportiva Uchi Oroshi Judo, que se ofereceram para trabalhar de forma voluntária, sem custo para o convento ou para as alunas. Os encontros, com duração de cerca de uma hora, acontecem na quadra do instituto e são abertos exclusivamente a mulheres, organizadas em grupos de amigas, mães com filhas e participantes de diferentes faixas etárias.​

Na parte prática, as alunas são divididas em duplas para treinar movimentos básicos, como se soltar de uma imobilização, criar rapidamente distância física em relação a um agressor e manter a lucidez em situações de medo. Os instrutores enfatizam que a autodefesa não se resume a reagir com agressividade, mas a avaliar o contexto, evitar a escalada da violência e priorizar a segurança, em especial quando o agressor é alguém conhecido.​

Perfil das participantes e demanda reprimida

Um levantamento interno das freiras indica que cerca de 30% das inscritas têm entre 40 e 50 anos, 25% estão na faixa de 50 a 60 anos, 23% têm de 25 a 40 anos e 15% são adolescentes e jovens entre 14 e 24 anos, o que mostra que a preocupação com segurança atravessa gerações. As mulheres vêm não apenas de Bibbiano, mas também de diversos municípios da província de Reggio Emilia, o que reforça a leitura das religiosas de que há uma demanda regional por iniciativas de prevenção e fortalecimento da autoestima feminina.​

Como o número de interessadas superou em muito a capacidade atual da quadra, com mais de cem pedidos para cerca de sessenta vagas, as salesianas já estudam abrir uma nova turma na primavera para atender quem ficou de fora da primeira edição. A procura, segundo as organizadoras, evidencia o impacto dos casos de feminicídio e violência de gênero no sentimento de vulnerabilidade de mulheres adultas e idosas, não apenas de jovens.​

Fé, prevenção e repercussão pública

Para as freiras, o curso simboliza uma forma de traduzir em prática a defesa da dignidade da mulher e o compromisso cristão com a proteção dos mais vulneráveis, aproximando fé e responsabilidade civil. Ao abrir o convento para um curso de judo voltado à autodefesa, a congregação busca mostrar que mansidão não significa passividade diante da violência e que o cuidado com o corpo e a segurança é compatível com a vida religiosa.​

A experiência, inicialmente pensada como iniciativa local, ganhou espaço em telejornais e portais italianos, transformando o curso de Bibbiano em exemplo de como instituições religiosas podem atuar na prevenção da violência de gênero. Em reportagens e notas oficiais, o instituto Maria Ausiliatrice é citado como modelo de articulação entre educação, espiritualidade e cultura de prevenção, estimulando outras paróquias e ordens a discutir ações similares em suas comunidades.

O Metropolitano

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