Moraes manda transferir Bolsonaro para complexo da Papuda

Decisão atende a pedidos da defesa e leva ex-presidente, condenado a 27 anos por trama golpista, da carceragem da PF em Brasília para sala de Estado-Maior no 19º Batalhão da PM, dentro do complexo penitenciário

Fotos: Reprodução – Arte RMC
Luciano Meira

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quinta-feira (15) a transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, para o Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal, onde ficará em uma sala de Estado-Maior instalada no 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”. A mudança de local de custódia ocorre após o início do cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses de prisão imposta a Bolsonaro pela suposta liderança de uma tentativa de golpe de Estado e por crimes contra o Estado democrático de direito. Na decisão, Moraes também leva em conta argumentos da defesa sobre a condição de saúde do ex-presidente e pedidos para ampliação de atendimento médico, fisioterapia e visitas familiares.

Da prisão preventiva à execução da pena

Bolsonaro está preso desde 22 de novembro de 2025, quando Moraes converteu a prisão domiciliar em preventiva e determinou sua custódia na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. A medida foi tomada após a Polícia Federal apontar risco à ordem pública, em especial pela convocação de uma vigília em frente ao condomínio do ex-presidente, feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e por indícios de tentativa de romper a tornozeleira eletrônica e de preparar fuga para uma embaixada.Em novembro, o ministro ressaltou que o ato convocado pelos aliados poderia servir para tumultuar a fiscalização das medidas cautelares e favorecer uma eventual fuga, o que, somado ao histórico de descumprimento de restrições judiciais, justificaria a prisão preventiva. O ex-presidente já vinha sendo investigado em inquéritos no STF por ameaças ao sistema eleitoral, articulações com militares e divulgação de desinformação, no contexto que culminou na ação penal da suposta trama golpista.

Condenação por trama golpista e crimes contra o Estado democrático

Três dias após a prisão preventiva, Moraes declarou o trânsito em julgado da ação penal em que Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma organização criminosa armada, tentar abolir violentamente o Estado democrático de direito, articular um golpe de Estado e causar danos ao patrimônio da União, incluindo bens tombados. A investigação apontou o ex-presidente como líder político e intelectual de um plano para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, com elaboração de uma minuta de decreto de intervenção e pressão sobre comandantes das Forças Armadas, fatos confirmados em depoimentos de ex-comandantes militares.

Segundo a decisão, a condenação envolve não apenas discursos e ameaças, mas uma sequência de reuniões, tratativas e mobilização de apoiadores, que, para o STF, ultrapassaram o campo da liberdade de expressão e configuraram tentativa concreta de ruptura da ordem constitucional. A defesa sustenta que tratou de instrumentos previstos na Constituição, como estado de defesa e de sítio, e nega a existência de um golpe em curso, mas os argumentos foram rejeitados pela Primeira Turma do Supremo, que manteve a condenação.

Motivos alegados para a transferência à Papuda

Na nova decisão, Moraes determina que Bolsonaro deixe a carceragem da PF e passe a cumprir a pena em uma Sala de Estado-Maior do 19º Batalhão da PM, unidade localizada dentro do complexo da Papuda e conhecida como “Papudinha”. O ministro afirma que a alteração de unidade prisional observa as prerrogativas de ex-chefes de Poder, que têm direito a acomodação diferenciada, isolada dos demais presos, sem contato com o regime carcerário comum.

A transferência vem na esteira de pedidos da defesa, que alegou que Bolsonaro estaria em “vulnerabilidade clínica permanente” e correndo risco de vida na PF, e pediu melhores condições para acompanhamento médico e fisioterapia. Moraes registrou que as denúncias sobre precariedade da custódia na PF não foram confirmadas por inspeções, mas considerou “conveniente” a mudança para viabilizar nova rotina de atendimento de saúde e maior flexibilização de visitas familiares, sob responsabilidade da Polícia Militar do DF.

Como será a custódia na “Papudinha”

A Sala de Estado-Maior destinada ao ex-presidente no 19º Batalhão da PM é um espaço exclusivo, isolado dos demais internos, com cerca de 60 a 65 metros quadrados, incluindo quarto, banheiro, cozinha, sala e pequena área externa, segundo descrição de fontes do sistema prisional e de decisões judiciais recentes. O batalhão é uma das estruturas que compõem o Complexo Penitenciário da Papuda e costuma receber presos com direito a prisão especial, como policiais e autoridades, em condições consideradas menos precárias que as unidades comuns do complexo.

Apesar do endereço dentro da Papuda, Bolsonaro não dividirá cela com outros detentos e seguirá sob regime de segurança reforçada, com vigilância da Polícia Militar e controle de acesso de familiares, advogados e equipe médica. A decisão mantém, ainda, o caráter de pena em regime fechado, com a execução vinculada ao processo da tentativa de golpe, cabendo à defesa pleitear futuramente benefícios como progressão de regime e saídas temporárias, se preencher os requisitos legais.

O Metropolitano

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