Fé e sincretismo: o 2 de fevereiro celebra Iemanjá e a identidade brasileira
Data marca homenagens à "Rainha do Mar" e reforça a herança cultural das religiões de matriz africana no país

Luciano Meira
Nesta segunda-feira, 2 de fevereiro, as orlas brasileiras — com destaque para Salvador e Rio de Janeiro — tornam-se palcos de uma das maiores manifestações de fé do país: o Dia de Iemanjá. A data, embora não seja um feriado nacional, possui profundo reconhecimento religioso e cultural, mobilizando milhares de devotos que depositam oferendas no mar em agradecimento e súplica à divindade das águas salgadas.
Iemanjá é um dos orixás mais populares do panteão africano, especificamente da tradição iorubá. Considerada a mãe de quase todos os orixás e a regente da maternidade e dos lares, sua importância transcende os terreiros de Candomblé e Umbanda, integrando o imaginário popular brasileiro como um símbolo de proteção e renovação.
O sincretismo e a formação étnica
A celebração de hoje é um exemplo vivo do sincretismo religioso, fenômeno central na formação étnica e cultural do Brasil. Durante o período colonial, para manterem o culto aos seus deuses sob a repressão da Igreja Católica e dos senhores de engenho, os povos escravizados estabeleceram equivalências entre os orixás e os santos católicos.
Nesse sistema de correspondências, o 2 de fevereiro coincide com o Dia de Nossa Senhora dos Navegantes (ou Nossa Senhora da Conceição, dependendo da região), facilitando a preservação da fé africana sob o manto da tradição europeia. Essa mistura de crenças moldou o modo de vida do brasileiro, onde o sagrado é frequentemente vivenciado de forma plural.
Tolerância e reconhecimento
O reconhecimento oficial e popular de datas como esta é um passo essencial para o fortalecimento da tolerância religiosa. Especialistas apontam que a celebração pública de Iemanjá ajuda a combater o estigma histórico que recai sobre as religiões de matriz africana, alvos frequentes de intolerância e violência.
A convivência harmônica entre diferentes credos nas praias brasileiras reforça a ideia de que o sincretismo não é apenas uma estratégia de sobrevivência do passado, mas um pilar da identidade nacional. Valorizar o Dia de Iemanjá é, portanto, reconhecer a contribuição fundamental dos povos africanos para a ética, a estética e a espiritualidade que definem o Brasil contemporâneo.
