Sony é julgada no Reino Unido por suposto abuso de preços na PlayStation Store
Ação coletiva de até 2 bilhões de libras acusa empresa de explorar posição dominante com comissão de 30% sobre jogos digitais

Pedro Meira
A Justiça britânica começou a julgar uma ação bilionária contra a Sony, acusada de abusar de sua posição dominante na PlayStation Store para cobrar preços excessivos de milhões de consumidores no Reino Unido ao longo de quase uma década. A ação, em modelo de ação coletiva, pode resultar em indenizações a mais de 12 milhões de usuários e se apoia em precedentes recentes da própria Justiça britânica contra grandes empresas de tecnologia.
O que está em jogo no processo
O julgamento teve início nesta terça-feira (10), em Londres, e envolve um pedido de indenização estimado em cerca de £2 bilhões (aproximadamente US$ 2,7 bilhões), com foco em compras digitais de jogos e conteúdo adicional na PlayStation Store. A acusação sustenta que a Sony teria explorado um “quase monopólio” na distribuição digital de games para PlayStation, mantendo consumidores presos ao seu ecossistema sem alternativas reais para adquirir versões digitais fora da loja oficial.
A ação é apresentada como coletiva (opt-out), o que significa que todos os usuários potencialmente afetados no Reino Unido são incluídos automaticamente, a menos que decidam se retirar do processo. Segundo os advogados, o caso pode estabelecer parâmetros para como grandes plataformas de games estruturam suas lojas digitais e definem comissões em mercados regulados por leis de concorrência.
Acusações: comissão de 30% e preços mais altos
O foco da denúncia é a comissão de 30% que a Sony cobra sobre todas as vendas digitais na PlayStation Store, incluindo DLCs e itens vendidos dentro dos jogos. Os autores afirmam que essa taxa, combinada com o controle exclusivo da distribuição digital no PlayStation, resultaria em preços “excessivos e injustos” para consumidores, em violação às leis de concorrência britânicas.
Durante a abertura da audiência, o advogado Robert Palmer afirmou que a empresa teria implementado uma estratégia deliberada para excluir concorrentes na distribuição digital de games. Um dos exemplos apresentados foi o de Assassin’s Creed Shadows para PS5, vendido na PlayStation Store por quase £70, valor que, segundo os autores, é o dobro do preço cobrado pela versão física em um grande varejista britânico, a Curry’s.
Quem representa os consumidores
A ação é liderada pela especialista em direitos do consumidor Alex Neill, que coordena o movimento em nome de milhões de usuários britânicos. Neill afirma que, uma vez que alguém compra um console PlayStation, passa a depender da infraestrutura da Sony para adquirir jogos digitais, o que daria à empresa poder para impor condições comerciais consideradas abusivas.
De acordo com estimativas apresentadas em ações anteriores relacionadas ao mesmo tema, entre 8,9 milhões e 12,2 milhões de consumidores podem ter sido afetados por supostos sobrepreços ao longo de vários anos. Em cenários semelhantes já divulgados por grupos que apoiam a ação, cada usuário poderia receber valores que variam de cerca de £67 a mais de £500, dependendo do volume de compras, embora os números exatos deste caso específico ainda dependam da decisão final do tribunal.
A defesa da Sony
A Sony nega ter praticado abusos e sustenta que, quando se considera o sistema PlayStation como um todo — incluindo o preço dos consoles e dos jogos —, a rentabilidade não é excessiva. Para a companhia, os preços praticados são competitivos e compatíveis com outras plataformas, e, se houvesse desequilíbrio, consumidores e editoras migrariam para outros sistemas de games.
A empresa argumenta ainda que o modelo de negócios baseado em comissões e exclusividade de distribuição digital é comum no setor e necessário para manter investimentos em infraestrutura, segurança, suporte a desenvolvedores e serviços online oferecidos à base de usuários. Em documentos apresentados à Justiça, a defesa classificou a ação como “excessiva” e “equivocada”, e tenta reduzir o alcance das acusações de abuso de poder econômico.
Outros processos e impacto global
Advogados envolvidos no caso afirmam que a estratégia da Sony de controle da distribuição digital não se limita ao Reino Unido e está sob questionamento em outros países. Processos semelhantes vêm sendo movidos em Portugal, nos Países Baixos e na Austrália, todos com foco em supostos preços abusivos e comissões elevadas na PlayStation Store.
O desfecho em Londres é observado com atenção porque pode servir de referência para tribunais de outros mercados que analisam práticas de grandes plataformas digitais. Em outubro, a Apple perdeu um processo semelhante no Reino Unido, relacionado a comissões consideradas excessivas em sua loja de aplicativos, em um precedente visto como desfavorável às big techs, ainda que a empresa americana tenha recorrido.
Entenda o contexto das ações contra lojas digitais
Nos últimos anos, grandes empresas de tecnologia têm sido alvo de ações coletivas e investigações antitruste por causa de modelos de negócios baseados em comissões de cerca de 30% sobre vendas digitais. Críticos afirmam que, em ecossistemas fechados — como consoles e certas lojas de apps —, a combinação de exclusividade na distribuição e taxas elevadas pode limitar a concorrência e resultar em repasse de custos para o consumidor.
No caso da Sony, o tribunal britânico deverá avaliar se a estrutura da PlayStation Store e a comissão de 30% configuram abuso de posição dominante ou se se trata de uma prática comercial legítima em um mercado com alternativas entre diferentes plataformas. A decisão pode influenciar não apenas o mercado de games, mas também debates regulatórios sobre lojas digitais em smartphones, computadores e outros dispositivos conectados.
Impactos para o consumidor brasileiro
Embora o processo seja restrito ao Reino Unido, ele pode influenciar consumidores brasileiros de PlayStation, que enfrentam preços altos na versão local da Store, muitas vezes superiores aos internacionais em até 50% devido a impostos e câmbio. No Brasil, o CADE já investiga práticas semelhantes em lojas digitais, e um resultado favorável aos usuários britânicos poderia incentivar ações locais contra a Sony ou pressionar por reduções em comissões e preços. Especialistas em direito do consumidor apontam que, com o crescimento do mercado de games no país — estimado em R$ 10 bilhões em 2025 —, decisões globais como essa tendem a se espelhar aqui, possivelmente beneficiando milhões de gamers com opções mais baratas ou reembolsos retroativos.
