Não “ouvo” gente esnobe, mas sou “beliscoso” e ataco ao STF para ganhar votos
Em estratégia para ganhar visibilidade eleitoral, ex-governador de Minas Gerais ataca Judiciário e tenta converter limitações com o idioma em identidade popular

Luciano Meira
O ex-governador Romeu Zema (Novo) publicou vídeo em redes sociais com críticas ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Zema afirmou que fala como um “brasileiro simples” e classificou o vocabulário do magistrado como “português esnobe”. O ataque ocorre após Mendes solicitar a inclusão do político no inquérito das fake news por postagens que satirizam integrantes da Corte.
A estratégia de confrontação direta com o STF tornou-se recorrente na agenda do ex-governador. Durante a entrega da Medalha da Inconfidência em Ouro Preto, em 21 de abril de 2026, Zema comparou a atuação dos ministros em Brasília ao período da colonização portuguesa. Ele defendeu reformas na estrutura do Judiciário e a imposição de mandatos fixos para os magistrados.
Analistas políticos avaliam que a postura busca conferir protagonismo a Zema no campo da direita nacional. O ex-governador apresenta baixos índices de intenção de voto para a eleição presidencial de 2026. Segundo pesquisa Quaest divulgada em 15 de abril, Zema registra 3% das preferências, atrás de Lula (37%), Flávio Bolsonaro (32%) e Ronaldo Caiado (6%).
A tentativa de projetar uma imagem de “homem simples” contrasta com episódios de desconhecimento cultural e erros gramaticais acumulados em sua trajetória. Em 2023, o então governador perguntou se a escritora Adélia Prado, uma das mais premiadas do país, trabalhava em uma rádio local ao receber um livro dela de presente. Em entrevistas, o político já utilizou a expressão “eu ouvo” e o termo inexistente “beliscoso” em vez de belicoso.
A base política do ex-governador também apresenta sinais de desgaste em Minas Gerais. Nas eleições municipais de 2024, o partido Novo não elegeu nenhum vereador em Araxá, cidade natal e reduto político de Zema. Servidores estaduais mantêm críticas à gestão devido à defasagem salarial acumulada e aos índices de atendimento em áreas básicas.
Os indicadores fiscais do estado registram deterioração no período recente. O orçamento sancionado para 2026 prevê um déficit de R$ 5,2 bilhões. A dívida pública de Minas Gerais com a União creesceu durante sua gestão, o que pressiona os investimentos em segurança, educação e saúde.
O cenário indica que a retórica contra o Judiciário serve como elemento de distração diante de problemas administrativos locais. Ao rotular o discurso jurídico como “esnobe”, Zema tenta converter suas próprias limitações com o idioma em um ativo político de identidade popular. O uso de termos como “eu ouvo” e o desconhecimento sobre Adélia Prado tornaram-se símbolos dessa dissonância entre a simplicidade pregada e a função pública exercida.
O impacto dessa estratégia reflete a polarização política brasileira, onde ataques a instituições geram engajamento digital, mas não necessariamente votos. Politicamente, a fragilidade eleitoral de Zema o isola na disputa pela liderança da oposição. Socialmente, o embate desvia o foco das urgências fiscais e sociais de Minas Gerais, mantendo o debate público em torno de polêmicas de vocabulário e vídeos de redes sociais.
