Zema foca em embate com o Supremo e isola candidatura de Mateus Simões
Estratégia de pré-campanha gera risco jurídico a Minas e não se traduz em ganhos em pesquisa eleitoral

Luciano Meira
O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), intensificou nesta semana a estratégia de confronto direto com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O movimento ocorre em meio à sua pré-campanha presidencial e busca, segundo analistas, capitalizar o sentimento anti-institucional de uma parcela do eleitorado de direita. No entanto, o comportamento beligerante de Zema ocorre no momento em que Minas Gerais depende de decisões da Corte para manter sua estabilidade fiscal, o que coloca o atual governador e sucessor, Mateus Simões (PSD), em uma situação de vulnerabilidade política.
A tática de buscar protagonismo nacional por meio de ataques ao Judiciário parece não ter surtido o efeito esperado nas urnas. Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (27) mostra que Zema oscilou apenas 1% nas intenções de voto, situando-se em 4% no cenário estimulado. O resultado, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, indica estagnação, o que sugere que a tentativa de Zema de “nacionalizar” sua imagem através do conflito não está capturando o eleitorado conservador de forma relevante.
As declarações de Zema provocaram reações imediatas na cúpula do Judiciário. O ministro Gilmar Mendes afirmou recentemente que a gestão de Minas Gerais nos últimos anos só foi viável devido a uma sucessão de liminares e decisões judiciais que impediram o colapso das contas públicas. Mendes classificou a postura do ex-governador como “utilitarista”, apontando que o Estado recorre ao STF para obter fôlego fiscal mas, simultaneamente, utiliza a Corte como alvo de ataques políticos para fins eleitorais.
A postura de Zema sinaliza um abandono tácito da candidatura de Mateus Simões. Simões, que assumiu o governo com a renúncia de Zema em março, necessita de uma interlocução institucional fluida com Brasília para gerir a dívida bilionária do Estado e implementar o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estado – PROPAG. Ao tensionar a relação com o STF, Zema cria um ambiente de insegurança jurídica que recai sobre Simões, que agora precisa administrar o “espólio” de uma gestão que se sustentou em decisões provisórias.
O ex-governador prioriza o projeto pessoal em detrimento da sucessão estadual. O temor é que a retórica de Zema possa refletir na celeridade dos processos de interesse mineiro na Corte. Embora o Judiciário deva pautar-se pela legalidade, o ritmo de tramitação de temas sensíveis, como a renegociação da dívida, depende de um mínimo de harmonia institucional entre os entes federativos e os tribunais superiores.
O impacto político dessa estratégia beligerante também se reflete na fragmentação da base aliada em Minas Gerais. Deputados estaduais observam que, ao focar no embate com ministros como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, Zema deixa Simões desamparado diante de crises locais, como a recomposição salarial das forças de segurança, que caso siga no caminho de tramitação que Simões deseja a judicialização da questão será inevitável. A percepção no legislativo mineiro é de que o ex-governador já “subiu no palanque” de 2026, deixando para o sucessor a tarefa de lidar com os riscos jurídicos e o desgaste administrativo.
Economicamente, o isolamento de Minas Gerais pode ser severo. Caso as liminares que suspendem o pagamento de dívidas sejam revogadas ou não renovadas pela falta de avanço nas negociações, o Estado enfrentaria um bloqueio imediato de contas. Tal cenário inviabilizaria qualquer tentativa de Mateus Simões de consolidar sua imagem como gestor eficiente, o que sepultaria suas chances de reeleição antes mesmo do início formal da campanha.
