Crise na Educação: Governo busca R$ 200 milhões com venda de prédio, mas gastou R$ 348 milhões em negócio suspeito
Governador Mateus Simões condiciona nomeação de reitor da UEMG à venda de imóvel em Frutal enquanto TCE, MP e Assembleia investigam gastos com material didático

Luciano Meira
O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), afirmou em vídeo divulgado em suas redes sociais que condicionará a nomeação do próximo reitor da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) à venda de um prédio da instituição em Frutal. O imóvel, segundo o governador, vale R$ 200 milhões, montante que o Executivo deverá integrar ao Programa de Desmobilização de Ativos Estatais (PROPAG), conforme aprovado pela Assembleia Legislativa, e não supostamente investir como o governador tenta fazer acreditar. Simões declarou que apenas escolherá um nome que se comprometa a não obstruir a alienação do patrimônio universitário.
A postura do governador ignora o rito democrático de escolha da reitoria, que deve seguir critérios acadêmicos e consulta à comunidade universitária, e não estar sujeita a pressões financeiras do Executivo. Ao impor uma condição comercial para um cargo de gestão educacional, o governo demonstra desapreço pela autonomia universitária e pelo funcionalismo público. A universidade é um espaço de ensino e pesquisa, não um balcão de negócios para o abatimento de metas fiscais do Estado.
O valor de R$ 200 milhões que o governo espera arrecadar com o prédio é significativamente inferior aos R$ 348 milhões gastos na compra de material didático, transação que está sob investigação. A denúncia, apresentada pela deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), aponta irregularidades na aquisição desses materiais, sugerindo um prejuízo aos cofres públicos maior do que o benefício alegado com a venda do imóvel da UEMG. O caso expõe uma gestão de recursos que eventualmente prioriza gastos suspeitos em detrimento da manutenção do patrimônio público educacional.
A crise nos bastidores da Educação resultou na recente exoneração do secretário de Estado da Educação, Rossieli Soares. Embora o governo não tenha detalhado os motivos da saída, e o secretário exonerado nega qualquer motivo relacionado a alguma irregularidade, a demissão ocorreu em meio ao avanço das investigações sobre os contratos de materiais didáticos denunciados pela Assembleia Legislativa. A saída de Soares sinaliza a instabilidade em uma pasta que agora enfrenta o desgaste ético de compras desnecessárias e talvez superfaturadas e a pressão política sobre as universidades.
Especialistas em gestão pública e educação criticam a tentativa de “venda casada” entre a reitoria e o imóvel de Frutal. Segundo acadêmicos, condicionar a nomeação de um dirigente ao desmonte patrimonial da própria instituição é um ato autoritário que fere a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e a autonomia didático-científica garantida pela Constituição. O governo, contudo, insiste que o prédio não possui utilidade plena para a universidade e que o recurso seria reinvestido na própria rede.
A incoerência fiscal do governo Simões é evidente ao comparar o esforço para alienar o prédio em Frutal com a facilidade em autorizar contratos de R$ 348 milhões sob suspeição. Enquanto a universidade perde espaço físico e autonomia, o dinheiro público flui para negócios investigados por falta de transparência. Esse cenário reforça a percepção de uma política educacional que enxerga o setor apenas como custo, sem valorizar o impacto social da formação superior.
O desdobramento desse embate deve ocorrer no Judiciário e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Deputados da oposição já articulam medidas para barrar a imposição do governador sobre a UEMG, alegando abuso de poder e desvio de finalidade. Ao mesmo tempo, o Ministério Público acompanha as denúncias de Beatriz Cerqueira sobre os materiais didáticos, o que pode agravar a situação política de Mateus Simões caso a irregularidade de R$ 348 milhões seja confirmada.
O impacto dessa postura é danoso para a política mineira, pois submete a educação a uma lógica puramente financeira e autoritária. Socialmente, o desmonte do patrimônio universitário reduz o potencial de expansão do ensino em regiões do interior. Politicamente, o governo se enfraquece ao tentar sanar contas vendendo prédios enquanto permite gastos nebulosos que superam as economias pretendidas, demonstrando uma inversão de prioridades que prejudica o futuro dos mineiros.
