“Cosplay de caipira”: Simões troca capital pelo interior em estratégia eleitoral

Governador substituto de Zema adota visual caricato e ataca Gilmar Mendes para tentar reverter isolamento nas pesquisas

Mateus Simões (PSD) – Foto: Agência Minas

Luciano Meira

O governador Mateus Simões (PSD) iniciou em abril a transferência temporária da sede do Executivo mineiro para cidades-polo do interior. A medida, denominada “Governo Presente”, repete o modelo de gestão itinerante de seu antecessor, Romeu Zema (Novo). Simões assumiu o cargo com o objetivo de elevar seu conhecimento perante o eleitorado, mas a estratégia tem gerado críticas pela adoção de um visual considerado artificial por lideranças regionais.

O figurino escolhido pelo governador para as agendas no interior, composto por botinas e chapéu, motivou uma alfinetada pública do ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão (Republicanos). Falcão classificou como “caricatas” as autoridades que utilizam tais vestimentas apenas durante o período eleitoral para visitar o interior. O comentário foi feito justamente em um evento da própria AMM, onde Simões estava presente.

A tentativa de aproximação com o eleitorado rural, como dizem os jovens fazendo um “cosplay de caipira”, ocorre em um momento de fragilidade para o governador. Simões enfrenta baixos índices de intenção de voto nas pesquisas eleitorais, ocupando posições que indicam dificuldades para a sucessão em 2026. A baixa popularidade tem forçado o político a radicalizar o discurso para ganhar espaço na mídia.

Seguindo o roteiro traçado por Zema, o atual governador buscou o confronto direto com o Poder Judiciário. Sem citar nomes de forma explícita, Simões atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. A fala ocorreu durante a sanção da lei que transforma o “mineirês” em patrimônio imaterial do Estado. O discurso foi algo fora de contexto, servindo apenas para alimentar a disputa ideológica entre o governo estadual e a Corte.

O embate entre o Palácio Tiradentes e Mendes não é novidade. O ministro do STF já havia criticado Romeu Zema anteriormente, afirmando que o ex-governador forçava o sotaque mineiro para parecer uma figura “do povo” e humilde. Simões, ao retomar o ataque, pega uma “carona” na tática de seu antecessor para mobilizar a base aliada e tentar personificar a resistência de Minas Gerais contra o que o governo chama de interferência de Brasília.

A estratégia de comunicação foca em transformar costumes cotidianos em atos políticos. A sanção da lei do dialeto mineiro foi utilizada como palco para a retórica contra o ministro, em um esforço para associar a defesa da cultura local ao apoio político à gestão Simões. No entanto, críticas como as de Falcão expõe o desgaste da imagem do governador perante os próprios prefeitos que compõem a AMM.

A repetição de fórmulas de marketing que funcionaram para Zema pode não ter o mesmo efeito com Simões. A percepção de falta de autenticidade, somada ao isolamento parlamentar e à falta de resultados econômicos expressivos no interior, torna a “itinerância” da capital um ato meramente simbólico.

Por outro lado, a verborragia das bravatas eleitorais são transformadas em silêncio sepulcral sobre as controvérsias envolvendo o ex-secretário de Educação, Rossieli Soares. Nem Zema nem Simões emitiram pronunciamentos oficiais sobre as denúncias de irregularidades na pasta da Educação que podem haver causado um prejuízo de R$ 348 milhões. A ausência de explicações do Executivo amplia o desgaste político da administração junto aos órgãos de controle. O ex-secretário deixou o cargo sob suspeitas que ainda aguardam esclarecimentos definitivos por parte do governo mineiro.

A transparência nas contas públicas também é alvo de questionamentos frequentes por especialistas e parlamentares. O governo de Minas Gerais concede renúncias fiscais bilionárias, mas não detalha as empresas beneficiadas ou os retornos práticos para o Estado. O montante desses incentivos fiscais permanece sem a devida prestação de contas pública. Críticos apontam que o sigilo sobre os beneficiários impede a fiscalização da eficácia econômica dessas medidas para a sociedade mineira.

A situação dos servidores públicos estaduais agrava o cenário de instabilidade política. O funcionalismo mineiro reivindica a reposição salarial das perdas inflacionárias acumuladas nos últimos anos. O governo Simões alega limitações orçamentárias devido à dívida do Estado com a União para não conceder o reajuste. Sindicatos de diversas categorias planejam paralisações e protestos contra a falta de cronograma para a valorização dos salários dos trabalhadores públicos.

A conduta de Simões gera impactos diversos na estrutura do Estado. Politicamente, o confronto com o Judiciário mantém Minas Gerais no centro de debates ideológicos nacionais, o que pode afastar investimentos. Economicamente, a falta de transparência nas renúncias fiscais compromete a previsibilidade orçamentária do Tesouro Estadual, e o custo do deslocamento da estrutura administrativa para cidades do interior gera questionamentos sobre a eficiência de gastos públicos. Socialmente, a ausência de reposição salarial para servidores precariza serviços básicos e amplia o descontentamento das classes trabalhadoras com o projeto governista.

O Metropolitano

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