Deputada agradece indicação mas não comparece em Ouro Preto onde cachorro Caramelo e grosseria do governador são os destaques
Medalha criada por JK foi entregue nesta terça-feira

Luciano Meira
Ouro Preto sediou nesta terça-feira a entrega da Medalha da Inconfidência, principal honraria do governo de Minas Gerais, a cerimônia que é realizada no dia 21 de abril, marca a memória de Tiradentes e simboliza a transferência simbólica da capital mineira para a cidade histórica.
Criada em 1952 por Juscelino Kubitschek, a medalha homenageia pessoas e instituições que contribuíram para Minas Gerais e para o país e é dividida em quatro graus: Grande Colar, Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência.
Neste ano, o evento reuniu autoridades estaduais e federais, entre elas o governador Mateus Simões (PSD), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas Republicanos), e o presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Leite (MDB), que participou da solenidade em Ouro Preto e preside o conselho da comenda.

A deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) foi uma das agraciadas com a Medalha de Honra, mas não compareceu à cerimônia. Em mensagem divulgada em suas redes sociais, ela agradeceu a indicação de Tadeu Leite e disse que o gesto reconhecia “relevantes serviços prestados à população mineira”, mas afirmou que o modo como o governo conduz a solenidade contraria o espírito da Inconfidência.
No áudio, Beatriz disse que o governo “não respeita a população de Ouro Preto” e criticou as restrições de acesso ao evento, com grades, controle e exclusão do público. Para ela, faz pouco sentido celebrar a memória inconfidente quando a população é impedida de participar da festa em sua própria cidade.
A parlamentar também classificou como “violência institucional” a postura do governo estadual e afirmou que o 21 de abril só deveria fazer sentido a partir da democracia e da soberania. Ela disse ainda que não vê coerência entre a homenagem a Tiradentes e o que chamou de discurso autoritário do Executivo mineiro.
Em outro momento, o clima político tencionou quando o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo (PV), fez um longo discurso com referências à história dos inconfidentes e citou o ex-presidente e ex-governador Juscelino Kubitschek: “Juscelino sabia que se encontrava em Ouro Preto a melhor escola devotada às lições democráticas herdadas dos inconfidentes e legada pelos maiores de Minas. Uma escola cívico-militante, que é o que interessa para o país. Se militarmos em favor de uma educação cívica, lúcida, transparente e democrática, seguiremos a lição de Rui Barbosa, que nas eleições de 1910 condenou o militarismo como um atentado aos princípios basilares da República”, manifestando sua oposição ao modelo de escolas cívico-militares proposto por Simões.
Em resposta ao prefeito, Simões referiu-se a Tiradentes como “o Alferes” que cumpria seu dever militar, uma redução mesquinha e torpe da figura histórica de mártir da independência a uma patente hierárquica.
A fala do governador remete a controvérsias históricas, quando a Inconfidência foi descrita como um “golpe” contra a Coroa Portuguesa. Uma clara distorção dos fatos que busca aproximar a imagem de Tiradentes à dos militares contemporâneos de viés golpista, que infestam a República desde o seu berço, ignorando que o herói mineiro lutava pela ruptura com o autoritarismo colonial e não pela manutenção de estruturas de poder vigentes.
O evento em Ouro Preto reflete a fragmentação política em Minas Gerais. A recusa de Cerqueira e o desentendimento com o prefeito de Ouro Preto demonstram uma resistência crescente à agenda educacional e administrativa de Simões. O isolamento do evento em relação ao povo mineiro reforça o debate sobre o uso das tradições republicanas para finalidades de palanque político institucional.
