Investigação da Controladoria motivou queda de Rossieli Soares da Educação

Governo de Minas admite que exoneração não foi consensual após denúncias de contratos milionários e privatizações

O secretário exonerado Rossieli Soares – Foto: Arquivo RMC

Luciano Meira

O governo de Minas Gerais confirmou, nesta terça-feira (28), que a exoneração de Rossieli Soares do comando da Secretaria de Estado de Educação (SEE) foi motivada por uma investigação em curso na Controladoria-Geral do Estado (CGE). A declaração contradiz a percepção inicial de uma saída amigável e ocorre em meio a uma série de denúncias protocoladas pela deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT). Segundo o Executivo, a decisão de afastar o secretário não ocorreu em “comum acordo”, mas sim como desdobramento de auditorias sobre a gestão da pasta.

As suspeitas que pesam sobre a gestão de Rossieli ganharam fôlego com a denúncia de um contrato de R$ 348,4 milhões para a compra de kits escolares e livros, assinado na antevéspera do Natal de 2025. A deputada Beatriz Cerqueira acionou o Ministério Público e o Tribunal de Contas (TCE-MG) apontando favorecimento à empresa Fazer Educação Ltda. O contrato, realizado por meio de adesão a uma ata de preços de São Paulo, não constava no planejamento anual da secretaria e envolveria uma empresa com sede no Amazonas, estado onde Rossieli iniciou sua carreira política.

Além das suspeitas sobre fornecimento de materiais, o processo de privatização da gestão escolar, sob o modelo de Parceria Público-Privada (PPP), também é alvo de críticas contundentes. A Comissão de Educação na Assembleia Legislativa (ALMG) denunciou que escolas incluídas no leilão de concessão administrativa receberam investimentos milionários em reformas e infraestrutura pouco antes de serem repassadas à iniciativa privada. Para Cerqueira, presidente da Comissão, o uso de recursos públicos para “preparar” as unidades para o mercado configura um prejuízo ao erário e uma inversão de prioridades na aplicação do orçamento educacional.

O projeto de concessão, que abrange 95 escolas estaduais, prevê que empresas privadas assumam serviços não pedagógicos, como manutenção, segurança e limpeza. No entanto, visitas da Comissão de Educação da ALMG a escolas alvo do projeto revelaram que muitas unidades já possuíam boa infraestrutura e gestões premiadas, questionando a necessidade da parceria. A deputada afirma que o governo Zema estaria entregando “joias da coroa” da educação mineira a grupos financeiros, incluindo bancos fundados por ex-integrantes da equipe econômica federal.

Rossieli Soares, que já foi ministro da Educação e secretário em outros três estados (AM, SP e PA), deixa o cargo cercado por polêmicas que o acompanham desde gestões anteriores. No Pará, ele enfrentou investigações da Polícia Federal por contratos de internet e kits escolares. Em Minas, sua nomeação por Romeu Zema (Novo) foi vista como uma tentativa de imprimir um ritmo empresarial à rede estadual, mas terminou sob a sombra de irregularidades administrativas e resistência de sindicatos e parlamentares.

O impacto político da saída forçada do secretário atinge diretamente o discurso de “gestão eficiente” do governo Zema. A admissão de que a CGE investiga a própria cúpula da educação sinaliza uma crise de integridade no primeiro escalão. Socialmente, a instabilidade gera incertezas para milhares de estudantes e professores da rede estadual, que agora aguardam a definição dos rumos das políticas de privatização e a transparência sobre o uso dos fundos destinados à compra de materiais didáticos.

Gustavo Braga, sucessor de Rossieli, assume a pasta com a missão de responder aos questionamentos dos órgãos de controle. O novo secretário é servidor de carreira e precisará lidar com o passivo de denúncias que ameaçam a credibilidade da administração estadual. A oposição já sinalizou que manterá a fiscalização rigorosa sobre as PPPs e os contratos emergenciais, enquanto o Ministério Público avalia a abertura de inquéritos civis e criminais sobre os fatos narrados.

O Metropolitano

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