Polícia Federal investiga suspeita de fraude em escritura para justificar R$ 468 mil apreendidos com líder do PL na Câmara
Investigação aponta que aliados de Sóstenes Cavalcante teriam produzido documento para dar aparência de legalidade ao dinheiro encontrado pela Polícia Federal no apartamento funcional do deputado; parlamentar nega irregularidades

Luciano Meira
A Polícia Federal investiga a suspeita de que aliados do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) tenham fraudado uma escritura pública de compra e venda de um imóvel para justificar a origem de R$ 468 mil apreendidos em espécie no apartamento funcional do parlamentar, em Brasília. A nova etapa da investigação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, apura se o documento foi elaborado posteriormente à apreensão do dinheiro para conferir aparência de legalidade aos recursos. O deputado bolsonarista, pastor evangélico, filiado ao PL e líder do partido na Câmara dos Deputados nega qualquer irregularidade.
Segundo relatório da Polícia Federal, há indícios de que a escritura apresentada pela defesa não corresponda a uma negociação efetivamente comprovada. Os investigadores afirmam que não encontraram elementos bancários capazes de demonstrar a circulação financeira compatível com a suposta compra e venda do imóvel, nem documentos que comprovem a origem dos recursos envolvidos na transação. A suspeita é de que a escritura tenha sido utilizada para justificar, posteriormente, o dinheiro apreendido durante a operação.
A nova fase da investigação também teve como alvo pessoas ligadas ao deputado. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra aliados de Sóstenes, e a PF recolheu documentos, aparelhos eletrônicos e cerca de R$ 160 mil em dinheiro vivo escondidos dentro de um livro falso. Os investigadores apuram a possível prática de crimes como falsidade ideológica, uso de documento falso e tentativa de obstrução da investigação por meio da apresentação da escritura.
O novo desdobramento amplia uma investigação iniciada no fim de 2025, quando a Polícia Federal cumpriu mandados de busca contra Sóstenes Cavalcante no âmbito de apuração sobre suposto desvio de recursos públicos por meio da cota parlamentar. Na ocasião, agentes encontraram R$ 468 mil em espécie no apartamento funcional do deputado, fato que levou os investigadores a aprofundarem a análise sobre a origem do dinheiro.
Na primeira fase da operação, a PF afirmou ter identificado indícios de utilização da verba de gabinete para custear despesas inexistentes ou incompatíveis com a atividade parlamentar, especialmente por meio de contratos de locação de veículos considerados suspeitos. Os investigadores também apontaram movimentações financeiras atribuídas a assessores e pessoas ligadas ao gabinete que, segundo a corporação, somavam cerca de R$ 1,8 milhão e poderiam indicar um esquema de ocultação da origem dos recursos. As suspeitas ainda são objeto de investigação e não houve conclusão definitiva do inquérito.
Após a apreensão do dinheiro, Sóstenes Cavalcante sustentou que os R$ 468 mil eram provenientes da venda de um imóvel e apresentou uma escritura pública como comprovação da operação. A Polícia Federal, contudo, afirma que a documentação apresenta inconsistências e que, até o momento, não foi possível comprovar a efetiva origem do dinheiro nem a movimentação financeira correspondente à negociação imobiliária.
Em manifestações públicas, o parlamentar afirma que todos os recursos têm origem lícita, nega qualquer fraude e diz ser alvo de perseguição política. A defesa também sustenta que a compra e venda do imóvel ocorreu regularmente e que a documentação comprova a legalidade da operação.
O inquérito permanece sob supervisão do Supremo Tribunal Federal. Até o momento, a Polícia Federal não concluiu a investigação nem houve denúncia criminal relacionada às novas suspeitas. As diligências prosseguem para verificar a autenticidade da escritura e eventual responsabilidade dos investigados.


