Fé e tradições populares marcam celebrações da Semana Santa no Brasil
Ritos católicos relembram a Paixão de Cristo enquanto costumes regionais misturam fé e lendas sobre o período

Luciano Meira
A Semana Santa, celebração central do calendário litúrgico cristão, mobiliza milhões de fiéis no Brasil em torno de ritos que remontam aos últimos dias de Jesus em Jerusalém. A Igreja Católica define o período como o “Tríduo Pascal”, que compreende a Quinta-feira Santa, a Sexta-feira da Paixão e o Sábado de Aleluia, culminando no Domingo de Páscoa. O ciclo litúrgico busca atualizar o mistério da morte e ressurreição, fundamentando a doutrina da salvação para o cristianismo.
Os fatos bíblicos que inspiram a tradição começam com o Domingo de Ramos, que recorda a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. A Quinta-feira Santa marca a Instituição da Eucaristia na Última Ceia, onde ocorreu o gesto do lava-pés, símbolo de humildade. A Sexta-feira Santa é o único dia do ano em que a Igreja não celebra a missa, realizando apenas a Celebração da Paixão, com a adoração da cruz, em memória do sacrifício no Calvário.
Para além dos muros das paróquias, a data é cercada de costumes e lendas que compõem o folclore brasileiro. A tradição de não comer carne vermelha na Sexta-feira é a mais difundida, fundamentada no preceito do jejum e da abstinência como forma de penitência. Em muitas cidades do interior, ainda persistem crenças de que “não se deve varrer a casa” ou “pentear o cabelo” no dia da crucificação, sob o risco de atrair má sorte ou desrespeitar o luto de Maria.
Outra prática cultural relevante é a “Malhação de Judas”, que ocorre no Sábado de Aleluia. Bonecos de palha, representando o apóstolo que traiu Jesus, são espancados ou queimados em praça pública. Especialistas em antropologia apontam que esse rito funciona como uma catarse coletiva e crítica social, onde o boneco muitas vezes recebe o nome de figuras políticas impopulares ou personagens polêmicos da atualidade.
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) indicam que a Páscoa é uma das principais datas para o consumo no país, impulsionada pela venda de chocolates e pescados. O setor de turismo também registra alta ocupação em cidades históricas, como Ouro Preto (MG) e Nova Jerusalém (PE), que realizam encenações da Paixão de Cristo. Essas manifestações culturais atraem milhares de visitantes, fundindo o fervor religioso com o desenvolvimento econômico regional.
Especialistas em teologia ressaltam que a Semana Santa é um momento de “memória ativa”. Segundo o padre salesiano e teólogo Carlos Coelho, a data não é apenas uma recordação histórica, mas uma oportunidade de reflexão sobre o sofrimento humano contemporâneo. “A liturgia convida o fiel a enxergar nas chagas de Cristo as dores das populações marginalizadas”, afirma Coelho, destacando o papel social das celebrações para a comunidade.
O impacto da Semana Santa transcende o campo religioso e atinge as estruturas políticas e sociais. O feriado prolongado altera a dinâmica produtiva e reforça identidades locais por meio de procissões e tapetes de serragem. Politicamente, a data é frequentemente utilizada para mensagens de reconciliação e paz por autoridades, aproveitando o simbolismo da ressurreição como metáfora para a superação de crises nacionais ou pessoais.
Em análise final, a Semana Santa consolida-se como um fenômeno de síntese cultural no Brasil. Ela une o rigor dogmático da Igreja às liberdades criativas das lendas populares. Do ponto de vista econômico, sustenta setores específicos do varejo e turismo, enquanto socialmente reafirma laços comunitários. A preservação desses ritos, sejam eles canônicos ou folclóricos, garante a continuidade de uma das mais complexas manifestações da identidade brasileira.
