Polícia Federal inclui Silas Malafaia em inquérito sobre obstrução de Justiça de Bolsonaro
Pastor que se intitula líder evangélico é confrontado por senador Ciro Nogueira, que minimiza relevância da igreja e denuncia proximidade tóxica com o bolsonarismo

Luciano Meira
A Polícia Federal incluiu o pastor Silas Malafaia no inquérito que apura a tentativa de obstruir investigações sobre a trama golpista envolvendo Eduardo e Jair Bolsonaro. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal e investiga práticas de coação e atentado contra a soberania nacional. Malafaia organizou ato em apoio ao ex-presidente, que terminou em prisão domiciliar de Bolsonaro após descumprimento de medidas judiciais. Em manifestações nas redes sociais, o pastor ataca sistematicamente o STF e seu ministro Alexandre de Moraes, concentrando críticas sobre o suposto descumprimento do estado democrático.
Pastor mistura defesa de Bolsonaro, alegações de censura e autopromoção
Silas Malafaia, conhecido pela postura combativa nas redes sociais e aliado próximo do ex-presidente Jair Bolsonaro, multiplica ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao ministro Alexandre de Moraes desde o avanço das investigações que apuram o envolvimento do grupo bolsonarista em tentativas de golpe de Estado. O pastor utiliza manifestações públicas e postagens para chamar Moraes de “ditador” e “criminoso”, alegando que o ministro instaurou um ambiente de censura digital e comete arbitrariedades jurídicas, como transformar opiniões em crimes e rasgar a Constituição em nome de processos considerados “aberrações” pelo religioso.
Retórica do pastor é marcada por contradições
Enquanto pede respeito à democracia e à liberdade de expressão, o religioso propaga insultos e desinformação, transformando divergência judicial em difamação pessoal contra autoridades. O discurso faz parte de uma estratégia de polarização que favorece o desgaste institucional do STF e alimenta a radicalização dos seguidores, beneficiando Malafaia pelo protagonismo midiático e pela associação direta ao grupo bolsonarista, mesmo diante da desaprovação de aliados mais moderados.
O pastor e sua igreja: seita com pouca relevância
Apesar de ser autointitulado líder espiritual e evangélico de referência nacional, Silas Malafaia viu sua importância questionada recentemente. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, afirmou que Malafaia “não lidera nada” e que sua igreja sequer possui representatividade relevante no cenário religioso. “É um líder de internet sem qualquer base expressiva no país”, disparou Nogueira, classificando a aliança de Bolsonaro com figuras como Malafaia como erro grave de cálculo político. Tal classificação sugere que a igreja presidida por Malafaia se aproxima do conceito de seita: grupo religioso fechado, que gira em torno de uma liderança carismática e busca diferenciação pela exclusividade doutrinária, sem reconhecimento amplo como religião legítima ou institucional.
Uma liderança midiática e controversa
Ações como a organização de atos políticos, uso das redes sociais para ataques a autoridades do Judiciário e envolvimento em investigações de obstrução de Justiça reforçam o perfil de Malafaia como líder midiático no ambiente digital, sem respaldo institucional do segmento evangélico tradicional. As críticas recentes de Ciro Nogueira e o desgaste na relação com a bancada evangélica mostram que Malafaia construiu relevância mais pelo protagonismo nas redes e pautas de confronto do que por influência religiosa autêntica. A classificação de sua igreja como seita e a inconsistência ética revelada pelo seu apoio ao clã Bolsonaro jogam luz na face mais crítica de sua trajetória: um líder disposto a sacrificar valores em prol da própria projeção política, atrelado a causas e alianças que pouco dialogam com o evangelho que diz defender.
Com postura marcadamente conservadora, Silas Malafaia tornou-se notório por defender bandeiras como combate à ideologia de gênero, rejeição ao aborto e promoção da família tradicional, mas curiosamente, Malafaia mantém apoio irrestrito à família Bolsonaro, composta por líderes políticos que, do ponto de vista das tais “pautas de costumes”, acumulam episódios e comportamentos que contradizem as bandeiras defendidas pelo pastor. Nomes como Jair e Eduardo Bolsonaro são mais associados à controvérsia social e política do que à virtude pessoal ou exemplo no campo ético, um paradoxo que pode sugerir um caráter oportunista do apoio de Malafaia ao grupo.
Os ataques de Malafaia ao STF e Alexandre de Moraes se fundamentam em três eixos principais:
Defesa dos aliados bolsonaristas: Malafaia se mostra incomodado com as decisões do ministro Moraes, que autorizou prisões e investigações contra empresários e membros do círculo político de Bolsonaro. O pastor denuncia essas ações como façanhas de um “estado policial” e mobiliza discursos religiosos para insuflar protestos.
Narrativa de censura e perseguição: Malafaia ecoa e potencializa o discurso de que o STF estaria censurando redes sociais e perseguindo opositores ideológicos, referindo-se ao controle de conteúdos online como mecanismos ilegítimos e posicionando-se como paladino da “liberdade de expressão”, mesmo recorrendo frequentemente a insultos e desinformação.
Busca por protagonismo político: Em meio ao enfraquecimento institucional e à contestação de sua liderança por outros políticos, Malafaia recorre a ataques ao Judiciário para manter-se relevante e mobilizar sua base radicalizada. O pastor se autoproclama defensor da democracia, ao mesmo tempo em que desacredita decisões tomadas pelo STF e alimenta teorias conspiratórias e tensionamento institucional.
Ataques intensificados
A inclusão de Malafaia no inquérito da Polícia Federal por suspeita de obstrução de Justiça acentuou o tom dos ataques, agora calcados na tentativa de desviar o foco das investigações e transformar o processo que corre contra ele e os Bolsonaros em prova de “perseguição política”. O pastor adotou ainda estratégias de vitimização e autopromoção, mobilizando seguidores com convocações para manifestação e atribuindo responsabilidades exageradas ao ministro Moraes pela crise institucional.