Criador Zema sufoca a criatura Simões com sua estratégia de campanha

Governador tenta ampliar alianças para disputar a reeleição, mas esbarra na estratégia nacional de Romeu Zema e na fragmentação da direita em Minas Gerais

Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões (PSD) – Fotos Redes Sociais – Arte RMC

Luciano Meira

Ao assumir o governo de Minas Gerais após a renúncia de Romeu Zema (Novo) para disputar a Presidência da República, Mateus Simões (PSD) tornou-se o candidato natural do grupo político que administra o Estado desde 2019. Poucos meses depois, porém, sua principal missão eleitoral passou a ser também seu principal desafio: transformar a condição de sucessor em liderança política própria.

A dificuldade decorre de um conjunto de fatores partidários e nacionais que vêm alterando o ambiente político em Minas. Embora nenhuma dessas circunstâncias, isoladamente, explique o cenário enfrentado por Simões, a combinação entre elas ajuda a compreender por que o governador ainda encontra obstáculos para consolidar uma ampla coalizão, mesmo ocupando o Palácio Tiradentes.

Um dos elementos centrais dessa equação é a estratégia adotada por Romeu Zema na disputa presidencial. O ex-governador tem procurado preservar sua autonomia no tabuleiro nacional, evitando comprometer-se antecipadamente com outros presidenciáveis do campo da direita enquanto busca consolidar sua própria candidatura.

Essa posição produz reflexos também em Minas Gerais. Sem uma definição sobre os alinhamentos nacionais, partidos e lideranças conservadoras tendem a adiar compromissos estaduais, aguardando maior clareza sobre a composição das chapas presidenciais. Para um candidato que depende da construção de uma frente ampla de centro-direita, a indefinição amplia o grau de incerteza nas negociações.

Nesse contexto surge o principal dilema político de Mateus Simões. Toda sua trajetória estadual está diretamente associada a Romeu Zema. Primeiro como secretário-geral de Governo, depois como vice-governador e, finalmente, como sucessor escolhido para concluir o mandato iniciado em 2023. Sua candidatura está estruturada justamente sobre a ideia de continuidade administrativa.

Essa relação, no entanto, reduz sua margem de autonomia política. Um eventual distanciamento de Zema para facilitar alianças poderia ser interpretado por aliados e eleitores como rompimento com o legado que pretende representar. Permanecer integralmente vinculado ao ex-governador, por outro lado, significa compartilhar também os limites estratégicos impostos pela campanha presidencial do padrinho político.

Foi justamente para ampliar sua capacidade de articulação que Simões deixou o Novo e ingressou no PSD em 2025. A mudança oferecia vantagens importantes: maior estrutura partidária, acesso ao fundo eleitoral, mais tempo de propaganda e uma legenda tradicionalmente reconhecida pela flexibilidade na formação de alianças. Além disso, a filiação também tinha como objetivo reduzir o espaço para uma eventual candidatura do então senador Rodrigo Pacheco ao governo estadual pela mesma sigla.

O cenário, entretanto, mudou rapidamente.

A decisão nacional do PSD de lançar o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado como candidato à Presidência alterou o contexto político da legenda. Simões passou a integrar um partido com projeto presidencial próprio, ao mesmo tempo em que manteve sua vinculação política ao presidenciável do Novo, Romeu Zema. A convivência entre essas duas estratégias passou a exigir um delicado equilíbrio dentro do partido.

As dificuldades aumentaram com a filiação do senador Carlos Viana ao PSD, conduzida pelo presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab. A chegada de Viana introduziu um novo componente na engenharia eleitoral mineira ao criar uma disputa por espaço na chapa majoritária.

O movimento também expôs um impasse interno. Antes da entrada de Viana, Marcelo Aro (PP), era tratado como o principal nome apoiado por Mateus Simões para uma das vagas ao Senado. Ao reiterar publicamente sua prioridade por Aro, o governador provocou desconforto entre aliados de Viana, que passou a defender maior protagonismo do PSD nas decisões eleitorais do Estado e criticou a dependência da legenda em relação às movimentações de Zema.

Paralelamente, a construção de uma aliança ampla à direita tornou-se mais complexa. Os atritos entre Romeu Zema e lideranças bolsonaristas reduziram as perspectivas de manutenção do PL na coligação governista. Lideranças do partido passaram a discutir alternativas, incluindo candidatura própria ou apoio a outros nomes do campo conservador, cenário que amplia a fragmentação do eleitorado de direita em Minas.

Todo esse processo ocorre num momento considerado sensível para a campanha de Mateus Simões. Embora esteja no exercício do governo estadual, pesquisas divulgadas desde o início do ciclo eleitoral indicam que o governador ainda trabalha para ampliar seu nível de conhecimento entre os eleitores mineiros e consolidar uma candidatura competitiva. Nesse contexto, a ampliação da base de alianças ganha importância estratégica para compensar uma densidade eleitoral ainda em construção.

Sob essa perspectiva, o cenário atual revela um paradoxo político. O principal ativo eleitoral de Mateus Simões continua sendo sua identificação com Romeu Zema e a promessa de continuidade administrativa. Ao mesmo tempo, essa mesma vinculação limita sua capacidade de construir alianças independentes num ambiente político marcado pela reorganização das forças de direita, pela estratégia presidencial do ex-governador e pelas disputas internas do próprio PSD.

Mais do que resultado de um único fator, as dificuldades enfrentadas por Simões decorrem da sobreposição de variáveis nacionais e estaduais. A estratégia presidencial de Zema, a reconfiguração interna do PSD, a disputa por espaços na chapa majoritária e a indefinição das alianças conservadoras ajudam, em conjunto, a explicar um cenário no qual o sucessor busca transformar a herança política que o levou ao governo em capital eleitoral suficiente para permanecer nele.

O Metropolitano

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