Democracia Cristã ‘vende’ Joaquim Barbosa como Obama brasileiro, mas entrega Che Guevara africano

Legenda tenta vender ex-ministro como terceira via, mas trajetória combativa e estilo de confrontação o aproximam do líder africano Thomas Sankara

Joaquim Barbosa (DC) e Thomas Sankara – Fotos: Reprodução Redes Sociais

Luciano Meira

O anúncio do partido Democracia Cristã (DC) confirmando o ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa como seu pré-candidato à Presidência da República para as eleições de 2026 sacudiu o cenário político brasileiro. A decisão trouxe à tona intensos debates, tanto pelas narrativas construídas pela cúpula do partido quanto pelos fortes atritos internos que a mudança provocou.

A cúpula do DC, liderada pelo presidente nacional da legenda, João Caldas, adotou um tom entusiasmado. Caldas tenta posicionar Barbosa como uma “terceira via” de peso moral. O dirigente afirmou que o ex-ministro surgiu no meio do caminho como “uma pérola, um diamante” e que sua candidatura representa o desejo popular de mudança.

O presidente da sigla usou a analogia de “Obama Brasileiro” para destacar a história de superação de Joaquim Barbosa. O pré-candidato é filho de pai pedreiro e mãe lavadeira e se tornou o primeiro negro a presidir o Supremo Tribunal Federal. Em nota oficial, o DC defendeu que Barbosa tem a estatura necessária para equilibrar as instituições e dar esperança ao país. A nota afirma que “o Brasil está acima de projetos pessoais”.

Para justificar a troca repentina, o partido utilizou o pragmatismo das urnas. Até então, o pré-candidato do partido era o ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo. O comando do DC declarou que a substituição ocorreu porque Rebelo não conseguiu pontuar nas pesquisas eleitorais após três meses de teste. Caldas rebatou críticas afirmando que “o povo já disse não para ele [Aldo] para presidente”. O dirigente sugeriu que Rebelo dispute outros cargos, como o Senado ou a Câmara.

A mudança gerou uma crise interna imediata e pública. Aldo Rebelo não aceitou a decisão e reagiu nas redes sociais. Rebelo publicou uma nota de repúdio classificando a manobra do partido como um “balão de ensaio” e uma afronta aos princípios de transparência. Ele alegou que o partido tinha um compromisso oficial com sua biografia e declarou que manteria sua pré-candidatura. Rebelo criticou o que chamou de interesses específicos de grupos dentro da sigla.

A movimentação do DC reacende uma figura que sempre rondou o imaginário da terceira via no Brasil, mas analistas políticos relembram o histórico de recuos do ex-ministro. Barbosa se filiou ao PSB em 2018 com forte apelo para ser candidato à Presidência, mas acabou desistindo da disputa por motivos pessoais e familiares. O nome de Joaquim Barbosa ganhou força nacional ao ser o relator do caso do Mensalão, encerrado em 2012, o que lhe rendeu fama de perfil rígido contra a corrupção.

A tentativa do DC de vender Barbosa como o “Obama brasileiro” encontra forte contestação na análise de seu comportamento institucional. Enquanto Barack Obama construiu sua liderança baseada no consenso, na conciliação e na retórica polida, a trajetória de Joaquim Barbosa no STF foi marcada pelo oposto. No Supremo, Barbosa se notabilizou por um estilo combativo, avesso ao corporativismo e de confrontação direta com as elites e com os próprios pares, como nos debates com Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Barbosa defendia sua postura como a recusa absoluta em ser um “negro submisso”.

O perfil de enfrentamento de Joaquim Barbosa o aproxima historicamente de Thomas Sankara, ex-presidente de Burkina Faso conhecido como o “Che Guevara africano”. Ambos operaram na chave da fricção e do confronto direto. No STF, Barbosa criticou juízes publicamente e peitou o corporativismo do Judiciário. Sankara, ao assumir o poder, cortou privilégios da elite governamental, substituiu carros oficiais Mercedes por modelos populares e peitou potências estrangeiras.

Barbosa e Sankara também compartilham o estigma do temperamento inflexível. Barbosa conduziu o julgamento do Mensalão com mão de ferro. Sankara criou os Tribunais de Defesa da Revolução para julgar oficiais corruptos de forma severa e pública. Barbosa exibia uma personalidade altiva e explosiva quando contrariado. Ele chegou a mandar jornalista “chafurdar no lixo” e chamou colegas de plenário de “sorrateiros”. Sankara possuía uma retórica feroz e sem filtros diplomáticos, o que gerou forte atrito com seus pares de governo.

O desfecho de ambos na esfera institucional aponta para o isolamento político. No ápice de sua presidência no Supremo, o desgaste com os demais ministros e dores crônicas na coluna levaram Barbosa a um isolamento progressivo. O magistrado antecipou sua aposentadoria em 2014, saindo dos holofotes. Thomas Sankara, por sua vez, isolou-se politicamente devido ao ritmo de suas reformas e à recusa em ceder a pressões. O racha interno com seus pares resultou no golpe de Estado que o retirou do poder.

O lançamento da pré-candidatura de Joaquim Barbosa pelo DC provoca impactos políticos e partidários significativos. A estratégia de marketing político baseada na figura do “Obama consensual” esbarra na memória real de um juiz que desafiou o establishment pelo confronto. O racha provocado pelo descarte de Aldo Rebelo enfraquece a coesão interna da legenda. A entrada de Barbosa tensiona o debate da terceira via, forçando os demais blocos a recalibrar suas estratégias diante de um perfil de alta voltagem e imprevisibilidade eleitoral.

O Metropolitano

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